Crise na Venezuela: o local parasidíaco em que quase ninguém quer morar mesmo com casas quase grátis

  • Guillermo D Olmo – @BBCgolmo
  • Da BBC Mundo em Rio Chico, na Venezuela

Praia de Barlovento.

Crédito, Andrés Morante

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As praias de Barlovento perderam muitos de seus visitantes nos últimos anos

Durante décadas, Rio Chico foi um paraíso perfeito para férias, o lugar junto ao Caribe onde muitos venezuelanos iam para descansar e se desconectar da agitação da cidade.

Agora está explodindo em criminalidade.

Todos os fins de semana, uma multidão de residentes da capital, Caracas, partia para o leste em uma rodovia, que era na época uma das mais movimentadas do país em busca de sol e prazer.

Em Barlovento, uma região no norte da Venezuela repleta de vilas turísticas e praias incríveis, muitas das casas antes elegantes ocupadas por turistas agora estão abandonadas.

Fernando Valera, um dos poucos que comprou uma casa no município de Rio Chico e reluta em sair, me explica: “Há uma casa que está sendo vendida por US$ 3 mil, mas a maioria dos proprietários simplesmente abandonou as que tinham” .

A causa: a ameaça de crime.

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Fernando Valera foi agredido 5 vezes em sua casa, mas está relutante em sair

Existem muitas propriedades disponíveis aqui. A maioria as vende por muito pouco dinheiro ou os proprietários cedem os imóveis para alguém que cuide deles.

Raúl López, que foi secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado de Miranda, que abrange a região de Barlovento, lembra que “nos bons tempos, as casas aqui custavam pelo menos US$ 80 mil (R$ 422 mil)”.

“Agora ouvi falar de alguém que estava vendendo duas casas e um barco por US$ 30 mil (R$ 158 mil).”

Mas, apesar dos descontos, os interessados ​​não aparecem.

Uma das áreas mais abandonadas é o Canales de Rio Chico. Empreendimento da década de 1970, seus desenvolvedores queriam emular alguns dos comdomínios exclusivos em Miami e outros locais costeiros dos EUA, onde os proprietários de casas de luxo podem levar seus barcos até à entrada de suas casas.

Foram construídos cursos de água, cais e até um campo de golfe. O negócio deu resultado rapidamente.

“Na década de 1980, houve um verdadeiro boom no Rio Chico de pessoas que compravam casas de veraneio aqui e vinham passar fins de semana e descansar”, diz López.

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Casas como essa estão à venda hoje por US$ 3 mil, quando há alguns anos seu valor era muito mais alto

O que mudou

Mas as coisas começaram a mudar drasticamente em 2013, quando o governo iniciou um processo de negociação com dezenas de gangues de criminosos para promover seu desarmamento e reintegração social.

Foram criados os chamados Quadrantes da Paz, territórios nos quais, em troca da promessa de abandono da violência, o Estado deixaria de perseguir os criminosos e forneceria recursos para que fossem economicamente viáveis ​​sem cometer crimes.

Barlovento era um desses quadrantes.

“Essas áreas de paz logo se tornaram um refúgio para as gangues. De Barlovento elas conduziam suas atividades criminosas em Caracas”, diz López.

Para os proprietários, começou um calvário. “Primeiro eles enfrentaram pequenos furtos, de modo que toda vez que voltavam para casa para passar o fim de semana, descobriam que algo estava faltando, mas depois as coisas pioraram e os sequestros começaram.”

Além da deterioração econômica do país, que há vários anos atravessa uma profunda crise econômica que tem provocado a migração de milhões de venezuelanos, e as crescentes dificuldades na obtenção de gasolina, muitos desistem de Barlovento para sempre.

“Muitas casas são boas, com piscina e só a manutenção já custa um bom dinheiro”, enfatiza López.

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Esta imagem de alguns anos atrás mostra algumas das casas da região

Fernando Valera é um dos poucos que não desistiu. “Já fui roubado aqui cinco vezes”, diz ele.

“A primeira vez havia entre 15 e 20 homens com fuzis e roupas militares. Eles saíram da mata, apontaram as armas para minha esposa e minhas sobrinhas, que estavam na piscina, e me tiraram do chuveiro. “

Valera lembra que eles agiram com disciplina militar. “Teve um líder que nos deu ordens e nos tratou bem. Os outros obedeceram; levaram tudo e foram embora.”

Outros não eram tão “profissionais”. “Em um dos assaltos eles estavam muito nervosos e colocaram um facão no pescoço da minha esposa.”

“Eles levaram tudo”

Depois de tanto roubo, sua vasta propriedade parece quase vazia. A cozinha hoje tem apenas os itens essenciais; e na sala, um par de poltronas e um velho CD player. “Não quero ter nada que chame a atenção, porque aí eles vêm e levam tudo.”

Como muitos outros que passaram por experiências semelhantes na região, sua família não quer voltar ao lugar que ele um dia sonhou transformar em um lugar de descanso ideal para eles.

Em 2010, ele investiu ali o que recebeu como indenização, quando deixou de trabalhar na indústria têxtil em Caracas para se aposentar em um lugar onde “se podia esquecer tudo”.

Ouvindo o canto dos pássaros tropicais que voam entre as palmeiras do seu jardim, é fácil entender o que diz.

Mas, enquanto falamos, um agente da Guarda Nacional aparece em uma motocicleta para lembrar que o equipamento de gravação da BBC não deve ficar à vista por muito tempo. “Essa área não é muito segura”, avisa.

Criminosos “eliminados”

A presença da polícia na região do Rio Chico aumentou nos últimos tempos e Fernando diz que vive com mais tranquilidade desde que foi instalado um comando da Guarda Nacional perto de sua casa. Soldados costumam passar por lá e verificar se ele está bem.

Mas algumas das táticas policiais causaram polêmica e críticas internacionais ao governo de Nicolás Maduro.

“As coisas estão melhorando porque muitos dos bandidos que invadiram essa área foram eliminados”, diz Fernando.

Ele diz que poucos dias antes de nosso encontro, três supostos criminosos foram mortos pela Força de Ações Especiais da Polícia. Ele não é o único em Rio Chico que relata que agentes invadiram os esconderijos de criminosos na floresta.

O Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas relatou milhares dessas “execuções extrajudiciais” na Venezuela nos últimos anos.

O governo não respondeu quando a BBC Mundo pediu informações.

Crédito, Getty Images

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A Força Policial de Ações Especiais foi acusada de cometer execuções extrajudiciais. (Imagem de arquivo)

“Não é que eu esteja feliz que eles sejam eliminados, mas pelo menos espero que haja tranquilidade”, diz Valera sobre os criminosos assassinados.

Ruínas modernas

No município de Río Chico não é difícil encontrar antigas vilas de veraneio em ruínas.

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Rio Chico é pontilhada de vilas vazias que agora estão abandonadas.

Algumas eram propriedade de grandes empresas do país, que as ofereciam a preços vantajosos aos seus empregados, ou do Estado, que há muito deixou de cuidar da sua manutenção.

Famílias muito pobres encontraram abrigo nelas e grupos de crianças descalças podem ser vistos em suas ruas carregando baldes de água à mercê dos mosquitos noturnos.

Perto dali fica Caño Copey, a imensa e deserta praia onde Carlos Quintana passa seus dias.

Ele conta que em sua época serviu na escolta pessoal do falecido Hugo Chávez. Agora ele é o salva-vidas em uma praia que dificilmente frequenta.

“Passo o dia todo sentado, olhando a água, a areia e a brisa.”

Os anúncios turísticos que sobrevivem na internet descrevem Caño Copey como “um lugar onde se terá os serviços turísticos necessários para passar um dia tranquilo na praia”.

Também na web há vídeos que mostram uma visão panorâmica das casas com piscinas, das praias e da rede de canais que percorrem a região.

Crédito, Andrés Morante

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Barlovento é um destino tradicional de férias para os venezuelanos de classe média e alta

Nenhuma dessas imagens idílicas corresponde às cenas a que o salva-vidas está acostumado.

“Certa vez, vi alguns turistas que acabavam de chegar à praia sendo agredidos e ameaçados com faca. Queria intervir, mas poderia ter me machucado.”

Sem visitantes urbanos para extorquir ou roubar, agora são os fazendeiros de cacau da região que têm de pagar às gangues que fizeram de Barlovento sua fortaleza.

Quem aqui ficou teve de se adaptar ao desaparecimento do turismo, o que agravou ainda mais o impacto da crise.

Quintana, por exemplo, alimenta os seus dois filhos com as bananas que crescem na sua horta e as sardinhas que consegue pescar neste litoral solitário porque o seu salário só dá para uns pacotes de arroz.

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Carlos Quintana é o salva-vidas de uma praia onde quase ninguém toma banho

Ele tem saudades do tempo em que as coisas eram diferentes.

“Nos carnavais ou nos finais de semana vinham muitos turistas e havia muito movimento nas vilas da praia”, explica, apontando com o dedo o que resta das casas à beira-mar.

Quintana me guia até uma delas. Sobrou pouco mais além da fachada e do terreno, mas a localização privilegiada a poucos metros de onde as ondas quebram e as suas generosas dimensões dão uma ideia do seu esplendor passado.

“Os proprietários subiam no telhado ao final do dia para ver o pôr-do-sol e tomar uns drinks enquanto ouviam música”, lembra.

Quando eles pararam de vir, os criminosos apareceram. “Eles levaram os banheiros, as portas, as janelas, tudo …”

E poderia ter sido pior. “Assim que aparece alguém que parece levar uma vida normal, eles o agridem ou sequestram e o forçam a pagar por extorsão”.

“Então quem vai querer uma casa aqui?” Quintana se pergunta.

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Fonte: BBC

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