Quando o brasileiro João* (nome trocado a pedido do
entrevistado), de 50 anos, foi ao Consulado dos Estados Unidos em São Paulo com
a esposa e a filha, ele estava bem empregado e os três conseguiram o visto de
turista com facilidade. A ideia era vir para os EUA passear e levar a filha na
Disney em Orlando.

Os planos mudaram quando João, que vive com família no
interior de São Paulo, perdeu o emprego e se viu completamente perdido. “Quatro
meses depois de tirar o visto de turista eu perdi o emprego. Eu estava com a
cabeça quente e minha esposa sugeriu: por que você não vai para os Estados
Unidos ver como é? Quem sabe você tem uma ideia”, contou João, que comprou
passagem para Los Angeles e embarcou em junho do ano passado.

“Quando cheguei a Los Angeles, entrei no Facebook em grupos
de brasileiros e acabei sendo convidado para trabalhar na Pensilvânia. Eu sabia
que o visto de turista não me dava o direito de trabalhar, mas resolvi
arriscar. Fui para uma cidade na região de Pittsburgh (PA), aluguei um quarto
por $370 e comecei a trabalhar com instalação de pisos e azulejos, ganhando $150
por dia, de segunda a sábado”, relata. Ele afirma ter ficado surpreso por ter
encontrado tantas oportunidades de trabalho, mesmo não tendo documentos para
trabalhar legalmente. “Eu comprei uma caminhonete, comecei a juntar dinheiro e
em uma semana, eu passei a ganhar o que eu não ganhava trabalhando no Brasil em
um mês”. João também abriu conta em banco.

Os meses foram se passando e João tinha certeza de que não gostaria
de ultrapassar a permanência do visto. “Eu não me sentia confortável sabendo
que estava fazendo algo contra a lei e decidi voltar depois de cinco meses e 18
dias nos Estados Unidos. Voltei com dinheiro suficiente para passara cinco
meses sem trabalhar”.

No dia 5 de dezembro de 2019 ele embarcou de volta ao
Brasil.

Volta para os EUA e visto cancelado

Com pouco mais de um mês que havia retornado dos EUA, João
decidiu que voltaria para comprar mercadorias para revender no Brasil, em lojas
como Ross, TJ Maxx, Marshalls, e assim, conseguir uma renda, até arranjar um
novo trabalho.

Ele então comprou passagem e embarcou no dia 1º de fevereiro
para Fort Lauderdale (FL), onde segundo ele, passaria dez dias e voltaria com
as compras. “Ao chegar no aeroporto, eu já fui selecionado para ser
entrevistado pela Imigração. Eles me fizeram uma série de perguntas e já sabiam
que eu tive conta em banco, que tinha alugado quarto, que tinha comprado carro.
Eu não sei mentir, acabei confessando que trabalhei”.

João foi honesto com as agentes e relatou que sabia que o
visto de turista não lhe dava o direito de trabalhar. O agente de imigração,
então, disse que ele seria mandado de volta para o Brasil. “Eles foram muito
educados comigo, não tenho do que reclamar. Passei 24 horas no aeroporto, me
trataram bem, confiscaram meu celular e documentos, mas me deixaram ligar para
minha esposa”.

No dia seguinte, João foi mandado de volta para o Brasil. Seus
documentos ficaram com o piloto e só foram entregues no desembarque. Ele também
foi escoltado por agentes até a porta do avião, mas nada disso o deixou
abalado.

O brasileiro teve o visto cancelado. Segundo a advogada de
imigração, Renata Castro, ele até pode pedir um waiver (perdão) denominado Hranka
Waiver, mas é muito difícil de ser aprovado. A advogada ressalta que os vistos
de sua esposa e sua filha não sofrem qualquer tipo de restrição, já que elas não
embarcaram, mas o fato de ele ter tido a entrada negada, pode sim prejudicar a
vinda das duas. “Tenho visto brasileiros sendo barrados todos os dias em
aeroportos, está muito comum. As situações mais comuns é que elas vêm com visto
de turista com intenção de trabalhar e isso é proibido. No caso dele, é bem
claro que ele teve o visto cancelado e a entrada negada porque trabalhou por
cinco meses com visto de turista. Os agentes têm a vida toda da pessoa na tela
do computador”.

Para finalizar, ele afirma que não se arrepende por ter sido
honesto com os agentes e espera um dia conseguir voltar com a esposa e a filha,
que vai fazer 15 anos daqui a dois anos, para conhecer a Disney.

Fonte: AcheiUSA