Voando baixo

“O Grand Canyon é fantástico, um passeio incrível, tem uma vista inesquecível”, comentou um amigo recém-retornado de viagem aos Estados Unidos.

“Havia a possibilidade de sobrevoá-lo com as crianças”, prosseguiu ele, “mas entrar num helicóptero, nem pensar, menos ainda com meus filhos”. Pavor de helicópteros. Sensação mais ainda ressaltada pelo fato de que no mesmo encontro tínhamos comentado a queda de um deles —no acidente que matou o ex-jogador de basquete Kobe Bryant.

Para quem não é aventureiro, o helicóptero pode assustar por sua aparente fragilidade. O avião comercial parece uma máquina poderosa, com potência imensa, capaz da proeza de desafiar a gravidade. E tem asas, que acentuam a ideia de que pode ao menos planar.

Já no helicóptero parece quase não haver barreiras entre nosso corpo e o nada. 

Ele não arremete numa furiosa arrancada em que, como no avião, vamos aos poucos sentindo as forças cinéticas nos arrematando do solo, o que parece fazer algum sentido —a força bruta rompendo e vencendo a amarra invisível que nos prende ao solo.

No helicóptero, a coisa simplesmente acontece. Em um segundo, nos sentimos suspensos. A pacata terra firme cede lugar à pequena oscilação que sinaliza para nossos corpos que estamos agora à mercê de forças que subvertem a natureza, movidas apenas por hélices finas, fragilmente flexíveis, invisíveis em seu movimento.

E no entanto… Para quem algum dia desejou, ao menos na infância ou em sonhos, flanar pelos ares como os deuses e os super-heróis, esse descolamento instantâneo da terra é certamente o que mais se aproxima da fantasia de voar (tirando, é claro, voos do tipo de paraquedas ou asa-delta, que se situam mais no território da insensatez esportiva que na do turismo).

Já estive em vários voos panorâmicos, em diferentes situações. E eles sempre são encantadores. Porque não nos colocam tão alto quanto num avião comercial: mantemos a terra à vista, com seus detalhes familiares —e com um controle instantâneo de movimentos —coisa que um balão, por exemplo, não permite.

É como se víssemos um grande tecido, mas ainda assim divisando seus fios e os detalhes de sua trama. Conseguimos vislumbrar as pessoas, as ondas, as árvores, vemos coisas que têm nossa estatura, com as quais podemos nos medir. Tão diferente de quando, no alto de um avião, vemos nuvens, recortes de cidades, montanhas, tudo tão maior do que nós.

Voar baixo deve ser um pouco como naqueles relatos de experiências de viagem fora do corpo: a consciência supostamente nos observa de fora, vendo nós mesmos e nosso entorno próximo (acho que de helicóptero é mais viável).

Foi assim que, entre muitas viagens de helicóptero, sobrevoei certa vez a Amazônia, vendo de longe (mas perto o bastante) seus moradores, sua vegetação, o emaranhado verde transbordando sobre a margem dos rios e ainda a inacreditável (de tão nítida) fronteira entre as águas no encontro bicolor dos rios Negro e Solimões.

Cruzei os céus de Nova York entre um heliponto de Manhattan e o aeroporto JFK, extasiado em ver a maré humana em movimento e sua aparente insignificância física diante dos enormes arranha-céus.

Bordejei a costa sudeste australiana observando as ondas baterem nas falésias de onde se desgarraram as pedras calcárias conhecidas como Doze Apóstolos, na Great Ocean Road, não longe de Melbourne.

E, não menos impactante, flanei pelos ares por sobre a beleza acachapante do Rio de Janeiro (mares, matas, rochas, pessoas) e com direito a uma “paradinha” sobre o estádio do Maracanã.

Só lamento pelo barulho do motor, que produz uma barreira isolando a natureza ao redor. Lembro de como é fascinante, na Amazônia, percorrendo seus rios, desligar os motores do barco, ou avançar apenas remando, ou caminhando na mata, e ouvindo o misterioso silêncio que pouco a pouco enche nossos ouvidos e sentidos com um rico universo de novos sons —e de paz.

Nesse ponto invejo os intrépidos aventureiros que, no lugar de apenas subir aos céus movidos por turbinas e hélices barulhentas (é até onde eu vou), se atrevem a fazer o caminho inverso, desabando de aviões ou montanhas para planar sem histéricos motores para atazanar. Adoraria, como eles, sorver os sons (principalmente da natureza, mas mesmo das cidades) durante os sobrevoos.

Mas eu acho que não será tão cedo.

Fonte: Folha de S.Paulo

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