O rabo de Bolsonaro no rodízio de carne

O espeto corrido das churrascarias rodízio é uma verdadeira aula de anatomia. Passa coração, passa asa, passa maminha, passa costela. Em Brasília, na quarta-feira (27), teve rabo no churrascão –algo fora do comum até nos rega-bofes do governo com a turma do Amado Batista.

Quem levou o rabo maroto foi justamente o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro. O rabo saiu da boca do chefe do Poder Executivo Federal.

E por que o presidente estava com o rabo na boca?

Porque a imprensa decidiu publicar algo que já era público, as despesas do governo com alimentação. Chamou a atenção das redes sociais o montante destinado à compra de leite condensado –R$ 15.641.777,49 que teriam sido gastos, no ano passado, segundo o site “Metrópoles”.

Aí Bolsonaro mandou a imprensa enfiar o leite condensado no rabo. E ainda cuspiu um “puta que o pariu”.

Os editores da Folha, em condições normais, não me deixariam estampar um “puta que o pariu” nesta coluna. É feio, é grosso, é desnecessário.

Mas eu apenas reproduzo a fala do Presidente da República. Esse é o tipo de exemplo com que temos de lidar desde 2019.

Vou imitar o Fabio Porchat para propor um pequeno exercício de imaginação. E se o Lula mandasse a imprensa enfiar cachaça no rabo? E se a Dilma soltasse um palavrão no meio de um evento público? Não vou nem falar do Temer, o gentleman do Jaburu…

Imagine o massacre que ocorreria se qualquer outro presidente fizesse o que Jair fez no churrabo.

Não estamos em condições normais –e a pandemia pouco tem a ver com isso. O comportamento do presidente é inaceitável sob qualquer ponto de vista. Quanto mais a sociedade brasileira vai apodrecer até que os donos das cordinhas de marionete percebam o tamanho do absurdo?

Bolsonaro precisa ser impedido.

* * *

Por falar em mau exemplo, marcou presença no churrabo de Brasília o presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), Paulo Solmucci.

Antes do almoço, o representante do setor de restaurantes reuniu-se com Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro e os ministros Paulo Guedes (Economia) e Gilson Machado Neto (Turismo).

Na pauta, um pedido de socorro ao governo. Na mesa de reunião, apenas Guedes usava máscara. Na imagens do churrabo, só os garçons aparecem mascarados.

Enquanto isso, em São Paulo, nomes influentes da gastronomia se mobilizam para convencer a opinião pública de que comer fora é seguro. Dizem seguir os protocolos sanitários. Protestam contra o endurecimento das medidas de distanciamento social, que restringe o funcionamento dos restaurantes.

O desespero dos donos de restaurantes é justo. O governo tem obrigação moral de socorrê-los. Não acho que tenham razão em querer relaxar a quarentena –a pandemia saiu de controle e a nova cepa de Covid-19 é um monstro.

O périplo brasiliense do presidente da Abrasel é, para dizer o mínimo, um desastre de relações públicas para a categoria. Procurado pela coluna, Solmucci disse que o almoço não era um compromisso de sua agenda pela associação. Ele também afirmou que usou máscara o tempo todo, exceto enquanto comia.

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Fonte: Folha de S.Paulo

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