Viagem de bolso

Com essa onda de calor que assola o fim do nosso inverno fica até difícil lembrar que, há algumas semanas, parte do país enfrentou temperaturas de apenas um dígito. E foi numa noite dessas que, quando coloquei a mão no bolso de um casaco que escolhi para me aquecer, fiz uma das melhores viagens dos últimos tempos.

Eu tenho um hábito antigo de colecionar coisas nas roupas que uso em viagem justamente para meses ou até anos depois encontrar alguma recordação interessante nelas. Nada demais: uma entrada de museu, um recibo de restaurante, um folheto de turismo. Mas em tempos tão difíceis como esses para um viajante, isso já é um alento.

Assim, meu itinerário começou ali naquele mantô azul, que guardava um guia “Explore Rotterdam” (Lonely Planet). Suas magras 32 páginas já foram suficientes para me transportar para essa cidade holandesa que tanto amei.

Junto dele estavam um mapa de Amsterdã e um bilhete de entrada do Rijksmuseum, de 2016. Uma caneta do Nhow Hotel (Roterdã) que me fez imediatamente lembrar daquele espaço projetado por Rem Koolhaas onde me hospedei. Ah! E moedas também: € 4,75.

No outro bolso do mesmo casaco, fui para Londres e Paris. Da capital inglesa guardei um mapa do centro, um bilhete de um dia do metrô (zonas 1 e 2), um recibo de uma loja que acho que nem existe mais (Jigsaw) e um papel de experimentar perfumes da Penhaligon’s onde eu escrevi “sartorial”, provavelmente o nome da fragrância. De Paris só encontrei um recibo de entrada do Palais de Tokyo.

Imediatamente quis viajar mais e fui correndo procurar recordações em outros casacos. Um deles me levou a Istambul, cidade que eu adoro e que não visito desde 2016.

Mas os souvenires estavam lá: um guardanapo de um restaurante chamado Kantin; um cartão da loja de tapetes do meu amigo Ismail (Dhoku) e a do seu primo (Ethnicon); um tíquete do Museu da Inocência, aquela linda invenção do escritor turco Orhan Pamuk.

Num daqueles impermeáveis que a gente só usa na neve, a escala foi no Chile: uma ficha não usada de um teleférico, em Vale Nevado; uma pequena escultura chata de madeira que comprei numa feira no Centro Cultural Gabriela Mistral; uns vinte anéis de papel que adornaram taças da degustação de vinhos no Bocanariz, em Santiago, sauvignon blanc, garnacha, riesling, a memória em goles…

Mais mapas em outros bolsos: Vancouver, no Canadá, daquela volta ao mundo que dei em 2010; La Perche, na França (esse junto com uma rolha de uma garrafa que tomei provavelmente num hotel chamado D’une Île); Pristina, em Kosovo, com as igrejas que fui visitar por lá assinaladas com caneta grossa; Alta, na Noruega, junto com vários recibos de roupas de frio que eu tive de comprar quando a companhia aérea perdeu minha mala na conexão Paris-Oslo —guardados para que eu pudesse pedir um reembolso, um processo complicadíssimo que nunca dei entrada…

E, além daqueles euros, encontrei mais dinheiro solto: um bolinho de pesos chilenos (quantos zeros!); duas notas do rial de Omã; liras turcas (talvez a única moeda que desvalorizou mais depressa que a nossa); três moedas daquelas bem pesadas que valem duas libras esterlinas cada; uma bem-vinda cédula de US$ 50; birr da Etiópia; 500 ariary de Madagascar, que precisei de alguns segundos para reconhecer.

Quantas histórias nesses fragmentos propositalmente esquecidos no meu vestuário. Mais de uma vez, durante uma viagem, ao colocar as mãos nos bolsos para caminhar ou me aquecer um pouco, pensei em esvaziá-los, jogar fora um desses papéis a princípio tão insignificantes.

Hoje sou grato a mim mesmo por ter resistido. Porque são essas “relíquias” que estão me ajudando a não esquecer como é bom viajar. São esses registros que renovam a esperança de que em cada esquina desse mundo a gente pode contar uma história.

Fonte: Folha de S.Paulo

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