Para alguns turistas, a simples contemplação do lugar não é suficiente

Transcrição fiel de uma conversa ouvida no primeiro dia de 2019, numa calçada em Les Halles, nas proximidades do Centre Georges Pompidou, o Beaubourg, em Paris.

Turista 1 (apontando um mapa de Paris aberto em todas suas dobraduras —sim, um mapa de papel, não de aplicativo): “Que ótimo! Só falta então esse museu (Beaubourg) e a torre Eiffel pra conhecer”.

Turista 2 (aparentemente na sua segunda ou terceira visita à cidade, segura de que podia dar conselhos aos novatos): “Isso. Mas fica esperta que lá é só a torre e mais nada. Não tem uma igreja nem uma capelinha. Não tem um museu. É supersimples: você chega, vê a torre e pronto”.

Quando a conversa —em português mesmo, já que as turistas eram brasileiras— prometia ficar ainda mais interessante, fui distraído pelo grupo de amigos que viajava comigo com uma consulta sobre nosso almoço daquele feriado. Mesmo em Paris, as boas opções num 1º de janeiro são escassas. Dei duas sugestões que sabia que estariam fechadas para me liberar logo e voltar a prestar atenção naquele papo, mas já era tarde. 

Cheguei a ver ainda a turista 1 dobrando seu mapa contra o vento gelado, uma cena quase poética nesses tempos tão digitais. Mas a turista 2, tão sapiente, já tinha virado alguma esquina, provavelmente em busca de mais algum item que pudesse riscar da sua lista de atrações turísticas com um breve “e pronto”. Uma pena…

Eu queria trocar uma ideia com ela, entender como ela viajava. Quem sabe até dar mais uma ou duas sugestões de coisas que ela poderia acrescentar no seu roteiro de visitas. Para logo “ficar livre”, como a mãe de uma amiga que tinha mania de relacionar tarefas só pelo prazer de eliminar as que ela ia cumprindo no dia.

Mas, enfim, passei a tarde fascinado com aquele comentário, menos até pela “missão” implícita nele —a de cobrir o maior número de atividades nas suas férias— do que pela constatação de que, para um certo tipo de viajante, uma experiência simples de contemplação não é suficiente. Como assim, um dos mais fotografados cartões-postais do mundo é… “só a torre e pronto”? Afinal, o que as pessoas esperam de uma viagem?

A pergunta assume ares quase metafísicos quando temos diante de nós um ano que começa com tantas possibilidades de lugares novos para conhecer. Eu estou, claro, com minha “carta de intenções” já pronta.

Ela inclui as remotíssimas ilhas Andaman; Líbano (finalmente!); uma passada pelo Chile (de novo) para tentar ver o eclipse solar de 2 de julho no Vale Elqui; o Museu da Natureza no Piauí; encarar os gorilas em Ruanda; um sonho antigo, o Taiti; explorar o litoral do Rio Grande do Norte; Croácia, que fiquei devendo de 2018; a costa da Suécia de barco no verão…

Bom será se conseguir realizar um terço disso tudo. Mas mesmo nos destinos que eu conseguir ir, o que eu devo procurar lá? E como devo me comportar? Sair correndo em busca do maior número de troféus turísticos? Ou simplesmente me entregar ao sabor do acaso em cada chegada?

Não há regras, como todo bom viajante sabe. Se a turista 2 saiu aparentemente decepcionada da sua visita à torre, talvez a turista 1 tenha, naquela tarde mesmo, visitado a Eiffel e se sentido como eu na minha primeira visão do monumento: com vontade de não olhar para qualquer outra coisa por longas horas.

Porque não há guia, legenda, tutorial —o que for— que te prepare para as coisas que você vai sentir quando tem a chance de rodar o mundo sem expectativas. Se esse te parece um ideal um tanto zen, inatingível, recomendo: faça o esforço. Não procure as excitações que os gurus de viagem prometem, nem mesmo as desse que vos escreve. Vá atrás do seu instinto.

Que foi exatamente o que eu fiz depois do almoço no dia 1º. Peguei um metrô até a estação Iéna, desci pela avenida Presidente Wilson, fiz que não sabia o que ia encontrar lá e de repente, um pouco antes de chegar ao Palais de Tokyo, olhei para a direita e a vi, deslumbrante. Só a torre e mais nada…

Fonte: Folha de S.Paulo

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