12 Ramificando
Ilustração: Marco Fraga

Deitado na rede, após o almoço, estava naquele limbo entre o sono e um vago estado de vigília. Acima dele, a copa densa da árvore não conseguia filtrar todo o mormaço do dia.
As ramificações, do tronco para os galhos maiores, dos galhos maiores para os menores, e destes para outros raminhos minúsculos, despertou nele um paralelo com a própria vida. Refletia em como uma decisão, num dado ponto do tempo, faz o destino ir pra um lado ou pra outro completamente diverso. Os galhos maiores seriam as escolhas cruciais, que determinam os rumos mais importantes. Os menores, as consequências que deles derivam. Um esbarrão em alguém no supermercado e pronto – uma série de acontecimentos aparentemente banais vão se encadeando. E aquela garota na gôndola de cosméticos acaba mãe dos seus filhos.

Espantou uma mosca, se ajeitou melhor na rede e se pôs a pensar no que poderia ter sido e não foi. Feliz ou infelizmente.

Possibilidade 1: ao invés de sair de casa pra cursar Economia, ele fica morando lá mesmo. Lá, naquele fim de mundo onde nunca ninguém merecia ter nascido. Amarga um emprego no banco, depois abre uma loja de ferragens – que se transforma em disk comida árabe, franquia dos Correios e distribuidora de água mineral. Vai levando como pode e toma umas duas ou três todo final de tarde. Gosta de carros antigos, joga futebol de botão sozinho e será candidato outra vez a vereador. Não nega que deve, muito e a muita gente. Mas diz que paga quando puder.

Possibilidade 2: seguindo uma inclinação de infância, ele vai para o seminário em 1978. A avó exulta de alegria: que benção um sacerdote na família! Excessos no genuflexório o obrigam a uma operação no menisco do joelho esquerdo, três anos depois. Recuperado, abandona a vocação religiosa. Presta um concurso na antiga Light, e passa em sexto lugar. Solteirão, mora em onze cidades diferentes. Aposentou-se o ano passado e hoje toca uma pousadinha em Guarapari.

Possibilidade 3: sua cega paixão pelo The Doors o leva, um dia, ao túmulo do Jim Morrison em Paris. No voo de volta ao Brasil, senta-se ao lado de um enólogo da Real Companhia Velha, fabricante secular de vinho do Porto, em viagem ao Rio para visitar parentes. Bastam dez minutos para que se tornem amigos de infância. Trocam cartões e se despedem no aeroporto. O distraído lusitano deixa cair a carteira, bem recheada. Ele liga para o enólogo, dizendo que está com ela. A recompensa não tarda: um emprego em Portugal. “Aceitas, ó pá? Morarás numa linda quinta, serás meu braço direito e não terás despesa alguma”. Ele topa. Conhece uma rapariga e, pouco tempo mais tarde, enche a quinta de miúdos (crianças, no português de Portugal). Todos os anos, nas férias, ele vai para o Brasil. Fátima, a esposa, fica. Para cuidar dos meninos e degustar o enólogo.

Possibilidade 4: Aquele galho (sem trocadilhos) dos tempos de colégio vira namoro e depois casamento. O que seria terrível: a Gracinha ficou gorda e (mais uma vez, sem trocadilhos) perdeu completamente a graça. Sem falar nos cinco meninos que ela teve. Tá certo que se casou com um crente, que não admitia anticoncepcional. Casada com ele, talvez tivesse um filho só, continuasse o balé no conservatório e mantivesse, ainda por uma boa década, toda aquela saúde que fez sua fama na cidade e adjacências. É, podia ser. Podia, só que não foi assim. Vamos pra próxima.

Possibilidade 5 (tão bem-arranjada quanto inverossímil): as dezenas 02 – 15 – 16 – 34 – 38 – 49, a mesma fezinha que fazia há anos, finalmente sairiam numa Sena Acumulada. A bolada seria grande e todinha dele. Ganharia mundo e poderia muito bem estar agora numa tabacaria em Gênova. No lobby de um hotel em Bruxelas. Caminhando por Beirute e ouvindo Mozart. Ou então, já desapegado do dinheiro, aprendendo meditação em Nova Deli. Poderia estar em qualquer lugar. Menos ali, às quinze pra uma da tarde, olhando feito bobo para a copa de um flamboyant.
Possibilidade 6…

Fonte: Brazilian Voice

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