SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Nesta quarta-feira, o cantor Gusttavo Lima se apresentou na cidade de Magé, no Rio de Janeiro, em show investigado pelo Ministério Público, pelo qual ele recebeu R$ 1 milhão de dinheiro público. A apresentação, assim como o artista, estão no centro da polêmica recente que envolve os cachês milionários pagos por prefeituras de cidades com poucos milhares de habitantes a estrelas da música brasileira.

A discussão gira em torno do uso de verba pública desproporcional para bancar eventos gratuitos para as populações desses municípios. No caso de Magé, por exemplo, o cachê de um único show de Gusttavo Lima é dez vezes maior que o valor que a Prefeitura de Magé deve investir em atividades artísticas e culturais durante o ano todo.

Mas como os cachês dos cantores sertanejos se tornaram os mais valiosos do país? A resposta passa pela dominação do gênero tanto nas rádios quanto no streaming, por uma cultura de centrar a produção artística em torno dos shows e pelo alcance do estilo musical nos interiores do país, além de questões meramente econômicas.

Apesar de alto, o valor pago pelo show de Gusttavo Lima em Magé não é diferente do que o cantor cobra para tocar em qualquer outro evento privado. Segundo pessoas que atuam nesta indústria ouvidas pela reportagem, e que preferem não se identificar, o cachê do artista é exatamente R$ 1 milhão, seja para eventos privados ou públicos.

A precificação de um show depende diretamente da capacidade de um artista vender ingressos. No caso de Gusttavo Lima, há anos um dos cantores mais populares do Brasil, os eventos em que ele se apresenta costumam ser grandiosos e a certeza de lotação máxima garante que o investimento do contratante vai gerar retorno financeiro com a venda de ingressos e bebidas e patrocínios.

Quem vende menos entradas é obrigado a cobrar menos para continuar atraente para os contratantes e manter a agenda cheia. Ou seja, o cálculo de um cachê costuma estar relacionado ao valor máximo que determinado artista pode cobrar sem que o contratante saia no prejuízo.

No caso de um show gratuito, negociado diretamente com a prefeitura, o artista apresenta notas fiscais de outras apresentações que tenha feito num período recente para que os entes públicos tenham uma base de cálculo e iniciem as negociações. É comum que alguns artistas aceitem receber menos do que cobram normalmente caso o evento aconteça num dia menos movimentado de sua agenda.

O show de Gusttavo Lima no próximo dia 15, uma quarta-feira, em Iguatu, no interior do Ceará, custou R$ 604 mil aos cofres públicos -e também está na mira do Ministério Público. Para uma quarta-feira, R$ 600 mil acabam sendo muito mais interessantes a um cantor como Lima do que a mesma quantia numa sexta ou num sábado.

Shows desse porte dificilmente aconteceriam nessas cidades caso não fossem bancados com dinheiro público. Isso porque uma cidade como Iguatu, que tem cerca de 8.000 habitantes, não teria público suficiente para pagar uma quantidade de ingressos mínima -a um preço que coubesse no bolso dos fãs- a ponto de viabilizar o evento.

Para os cachês mais altos da música sertaneja, hoje pertencentes a nomes como Henrique e Juliano, Wesley Safadão, Jorge e Mateus e Zé Neto e Cristiano, além de Lima, fazer os chamados “shows de prefeitura” não é necessariamente mais atraente do que tocar em eventos privados em regiões mais ricas. Um camarote para 30 pessoas no show de Gusttavo Lima no estádio Arena Pantanal, em Cuiabá, no último mês de março, saiu por R$ 20 mil.

E nem todos os artistas vendem seus shows da mesma maneira. Wesley Safadão, cujo cachê é cerca de metade do de Lima, costuma entrar como sócio de seus shows, ganhando porcentagens que chegam até metade do lucro total do evento. A depender de sua capacidade de vender ingressos, ele pode conseguir até mais do que o cerca de R$ 1 milhão fixo do Embaixador.

Profissionais da indústria revelaram à reportagem que os “shows de prefeitura” representam por volta de 10% da arrecadação mensal de um desses artistas de grande porte, número que pode crescer bastante quando se trata de um cantor pequeno ou emergente, com agenda mais vazia e menos capacidade de vender ingressos. É como se a cada 20 shows que uma dupla sertaneja renomada faz por mês, dois ou três fossem nos eventos das prefeituras -um número que também pode mudar em épocas de festividades como Carnaval ou São João.

Para atingir esses altos cachês -um show desses grandes nomes do sertanejo têm valores orbitando em torno de R$ 500 mil-, os músicos sertanejos apostam em vender suas apresentações como o principal produto de suas carreiras. Hoje, é raridade que os álbuns desses cantores sejam gravados em estúdio -a maioria é registrado ao vivo, ressaltando a participação do público, a estética sonora, o repertório e a estrutura que eles vão levar à estrada. Até os clipes são captados nos shows.

Uma reportagem da Folha de 2019 revelou que o Brasil é o país do planeta que mais escuta músicas “ao vivo” no Spotify, um resultado da grande participação do sertanejo entre os mais ouvidos do país no streaming. No caso desses artistas, a música gravada serve mais como chamariz de seus shows e turnês do que o contrário. A atual turnê de Luan Santana, a “Luan City”, por exemplo, tem um cenário que reproduz uma cidade e estética retrofuturista, com estruturas de metal e luzes de LED.

Mas, além dessa estratégia de mercado, também usada por outros gêneros Brasil afora, como o forró e a pisadinha, há a capacidade da música sertaneja de penetrar nos interiores do país -façanha mais difícil para as chamadas “músicas urbanas”, como o pop de Anitta e o funk de Rio de Janeiro e São Paulo. Parte desse alcance está ligado a uma dominação das rádios, com táticas que vão desde o relacionamento cara a cara com funcionários das estações até a compra de espaço nas programações, o famoso jabá.

O EMBAIXADOR

Esse cenário representa a ponta de um iceberg da ascensão da música sertaneja como a mais dominante da indústria fonográfica brasileira. É um processo que vem desde pelo menos os anos 1980, com o estouro de Chitãozinho & Xororó, Zezé de Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo.

O sucesso do show “Amigos”, que reunia esses astros nos anos 1990, representou a ideia de modernização do gênero, que buscou abandonar a pecha de música caipira para chegar às grandes cidades num processo paralelo à urbanização desenfreada das metrópoles do país. Nos anos 2000 e 2010, o crescimento continuou, primeiro com o chamado sertanejo universitário e depois com a absorção de outros gêneros populares da música brasileira.

Dentre os cachês mais altos do sertanejo, Gusttavo Lima é, junto a Jorge e Mateus, quem está há mais tempo em atividade e em evidência. O Embaixador emenda hits há pelo menos uma década, quando ganhou atenção nacional com “Balada (Tchê Tcherere Tchê Tchê)” -do famoso verso “Gusttavo Lima e você”-, música composta inicialmente para o grupo de axé Jammil e Uma Noites que acabou nas mãos do sertanejo.

Essa capacidade de absorver a música com aspectos mais dançantes do Nordeste, como o arrocha, fez com que Lima continuasse em relevância. Há dez anos, ele gravou com Neymar a música “Fazer Beber”, do baiano Nelson Nascimento -apontado como o pai da pisadinha, subgênero do forró que só há cerca de três anos virou sucesso nacional. “O sertanejo virou um batidão”, ele canta na gravação da faixa em “Ao Vivo em São Paulo”.

Nos últimos anos, quando adotou o apelido de Embaixador, Lima assumiu uma postura mais romântica e foi o principal nome do sertanejo a incluir elementos da bachata, o ritmo caribenho que surgiu na República Dominicana e destaca os bongôs. O estilo tem semelhanças rítmicas com o arrocha, além de arranjos feitos com violões cheios de eco e artesanalmente incrementados com captador e cordas de guitarra elétrica.

Deu tão certo que praticamente todo o sertanejo mainstream seguiu os passos do Embaixador, de Luan Santana a Marília Mendonça. Hoje Gusttavo Lima tem quase 10 milhões de ouvintes no Spotify, e está na elite dos artistas mais bem-sucedidos do Brasil, dono de um dos shows mais cobiçados país afora.

Não à toa, no ano passado, ele vendeu cerca de 190 de seus shows em 2022 ao fundo de investimentos Four Even, numa negociação estimada em R$ 100 milhões.