Variante Delta: é preciso rever estratégias de vacina e prevenção contra versão mais transmissível?

Pessoa sendo vacinada
Legenda da foto,

Sem dúvida, essa nova versão do coronavírus está se tornando um problema global. Nas próximas semanas, provavelmente, ela vai se espalhar ainda mais pelo mundo. E isso dá uma ideia do poder de propagação dessa variante

Muito tem se falado sobre a variante Delta do coronavírus, detectada originalmente em outubro de 2020 na Índia e conhecida pela sigla B.1.617, hoje vista como uma grande ameaça em formação.

Mas será que realmente ela apresenta motivos para alarme?

Delta se torna global

O Sars-CoV-2, coronavírus responsável pela pandemia atual, não é como o vírus da gripe, o “campeão” da variabilidade.

O vírus que causa a covid-19 tem uma capacidade mais limitada de mutação. E, quando surgem novas variantes, elas precisam ter características “vantajosas”, que as tornem viáveis num ambiente de tanta competição.

A forma como o vírus se liga às nossas células é conectando a espícula (também conhecida como proteína S) ao receptor ACE2, que fica na superfície de nossas células.

As principais variantes observadas até o momento surgem a partir de mutações espontâneas nessa proteína S do vírus.

Mas essas alterações genéticas acontecem aos poucos e de forma gradual: se muitas mudanças ocorrem de uma hora para outra, o vírus deixa de ser viável.

Especificamente, a variante Delta tem duas mutações mais relevantes na espícula, que são conhecidas pelos códigos L452R e P618R.

Essa nova linhagem já virou maioria no Reino Unido, onde atinge 99% de prevalência entre as variantes circulantes e, claro, na Índia, onde foi inicialmente identificada em dezembro de 2020.

E tudo indica que ela também se tornará dominante em mais países, assumindo o lugar que era da variante Alfa (anteriormente conhecida como britânica, ou B.1.117).

Nos Estados Unidos, a Delta já representa cerca de 20% dos casos.

Sem dúvida, essa nova versão do coronavírus está se tornando um problema global. Nas próximas semanas, provavelmente, ela vai se espalhar ainda mais pelo mundo. E isso dá uma ideia do seu poder de propagação.

Na Espanha, foram relatados casos e surtos importados e autóctones (transmitidos localmente). Nas semanas iniciais, a presença da Delta por lá girava em torno de 1% dos casos. Nos últimos dias, ela chega a representar cerca de 20% das amostras analisadas.

E no Brasil?

Os primeiros casos de covid-19 no Brasil provocados pela variante Delta foram confirmados no dia 20 de maio.

A detecção aconteceu num grupo de seis passageiros do navio MV Shandong da Zhi, que chegou ao litoral do Maranhão no dia 15 de maio.

Tudo começou quando um homem indiano com sintomas da infecção foi internado num hospital de São Luís, capital maranhense, o que acendeu o sinal de alerta das autoridades locais, pois já se temia os efeitos que a entrada dessa nova linhagem poderia ter no país.

Os demais passageiros da embarcação permaneceram em quarentena, e cinco deles também apresentaram essa nova versão do vírus.

Durante o mês de junho, novos casos foram observados em várias regiões do país: cidades de Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Goiás já confirmaram a presença da Delta.

As duas primeiras mortes por covid-19 relacionadas a essa linhagem por aqui foram notificadas também em junho: a primeira foi uma gestante de 42 anos, no Paraná, e a segunda aconteceu com um homem de 54 anos, que era um dos tripulantes do navio MV Shandong da Zhi, atracado no Maranhão.

Apesar desses indícios da presença da variante Delta em território brasileiro, infelizmente não é possível estimar o seu impacto: os sistemas de vigilância genômica nacionais são bastante incipientes e não conseguem analisar um número de amostras suficientemente grande para ter uma ideia do que está acontecendo nas cadeias internas de transmissão do coronavírus, a exemplo do que acontece no Reino Unido e na Espanha, que foram citados anteriormente.

O que dizem os números

Embora os mecanismos exatos ainda sejam desconhecidos, é fato que a Delta é mais transmissível em comparação com a Alfa: essa taxa de transmissibilidade chega a ser entre 40 e 60% maior, de acordo com dados da Agência Europeia para o Controle de Doenças (eCDC).

Estima-se que o R (ou número reprodutivo básico efetivo, ou o quanto uma pessoa infectada transmite o vírus para outras) é até 55% maior do que o da variante Alfa.

No Reino Unido, esse R fica na casa de 1,44 (cada 100 pessoas infectadas transmitem o vírus para outras 144).

Há dados que apontam para um risco maior de hospitalização atrelado a essa variante, mas ainda não se tem certeza absoluta sobre isso.

Dados da Escócia mostraram que o risco de hospitalização é quase o dobro em comparação com a variante Alfa.

E algo semelhante pode ser deduzido dos dados do serviço público de saúde britânico.

Outra informação que preocupa vem da área de tratamento: tudo indica que os remédios da classe dos anticorpos monoclonais, como o casiribimabe e o imdevimabe, funcionam menos em pacientes acometidos pela covid-19 provocada por essa linhagem.

As informações são do Food and Drug Administration, a agência regulatória dos Estados Unidos.

Existem motivos para alarme com as vacinas?

No atual momento, não. Lembre-se de que já surgiram (e muito provavelmente surgirão) diversas variantes do Sars-CoV-2, como foi o caso anterior de Alfa (Reino Unido), Beta (África do Sul) e Gama (Brasil).

Toda vez que essas novas linhagens são classificadas como “preocupantes” pela Organização Mundial da Saúde, sempre aparece a mesma dúvida: será que elas são capazes de driblar as vacinas?

Mas esse cenário, felizmente, não se concretizou até agora.

Pelo contrário, sabemos que as vacinas funcionam bem com absolutamente todas as variantes conhecidas. Isso foi visto no Reino Unido, onde a Delta é a dominante.

Cerca de 14 dias após tomar a segunda dose, a eficácia é de 96% com o imunizante da Pfizer e de 92% no caso de AstraZeneca/Universidade de Oxford.

A farmacêutica Janssen também soltou um comunicado dizendo que o seu produto “oferece proteção duradoura contra a covid-19 e provoca uma atividade neutralizante contra a variante Delta”.

Esses resultados, porém, ainda não foram publicados em revistas científicas para a análise de cientistas independentes.

No caso do Brasil, que também utiliza as vacinas de AstraZeneca/Oxford, Pfizer e Janssen, a dúvida maior fica sobre a quarta participante de nossa campanha nacional, a CoronaVac (Sinovac/Instituto Butantan).

Recentemente, alguns porta-vozes da farmacêutica chinesa Sinovac afirmaram que o imunizante é capaz de barrar a variante Delta, mas os resultados dessa pesquisa ainda não saíram em nenhuma revista científica.

Outras alternativas que estão sendo pesquisadas mundo afora são a possibilidade de ampliar o intervalo entre as doses ou mesclar diferentes vacinas (como tomar a primeira da Pfizer e a segunda da AstraZeneca, por exemplo).

Essas estratégias podem ampliar a eficácia e garantir um melhor efeito contra esses novos desafios que aparecem pelo caminho.

Outro aspecto super importante que precisa ser mencionado quando falamos de novas variantes é a rapidez com que vacinamos.

Quanto mais ágil forem as campanhas e o maior número de pessoas, inclusive os jovens, tomarem as suas doses, mais rapidamente evitaremos mortes pela Delta ou qualquer uma das outras variantes.

Além de evitar casos graves e óbitos, já se sabe que alguns imunizantes conseguem reduzir a circulação do coronavírus pela comunidade, o que também sinaliza um caminho para o controle pandêmico no futuro.

Retomada no Reino Unido

Mesmo diante de todas essas informações, não podemos ignorar que os casos voltaram a subir em lugares como o Reino Unido: na última semana, houve um aumento de 70% nos diagnósticos de covid-19, embora a taxa de internações só tenha se elevado em 10%.

Acredita-se que essa diferença esteja relacionada com a vacinação adiantada de lá, em que 85% dos adultos já tomaram a primeira dose e 62% estão com o esquema de imunização concluído.

Apesar do repique nos casos britânicos, dados oficiais mostram que o crescimento está sendo impulsionado pelas faixas etárias mais jovens, com uma taxa de positividade cinco vezes maior entre crianças de 5 a 12 anos e adultos de 18 a 24 anos.

Além disso, o crescimento de infectados entre as pessoas com menos de 50 anos era 2,5 vezes maior do que entre aqueles com 50 anos ou mais.

Em Israel, onde a Delta está se tornando dominante e as vacinas foram administradas em mais de 80% dos adultos (ou 60% da população total), já se observa um aumento nos casos, mas nenhuma alteração significativa nas hospitalizações ou nas mortes.

Devemos relaxar?

Obviamente não devemos relaxar.

Numa situação em que a susceptibilidade global ainda é elevada, sobretudo porque a percentagem da população vacinada ainda é insuficiente para sentirmos algum sinal de fim da pandemia, a circulação desta variante deve nos colocar em alerta, mas não alarmados.

Para evitar que novas variantes ainda mais transmissíveis ou, pior, com capacidade de driblar o efeito das vacinas já disponíveis apareçam, é preciso apostar em duas estratégias que devem andar de mãos dadas e seguem efetivas contra as novas variantes, como a Delta: acelerar o ritmo de vacinação e manter (ou fortalecer) as estratégias não farmacológicas de prevenção, como o distanciamento social e o uso de máscaras.

Uma discussão que precisaremos ter num futuro próximo é a vacinação contra a covid-19 de crianças e adolescentes.

Proteger os menores de idade provavelmente ajudaria a obter imunidade coletiva mais rapidamente nos locais com as campanhas mais adiantadas, mas é questionável ampliar o público-alvo agora, num momento em que muitos países sequer iniciaram as campanhas de vacinação para grupos prioritários.

Enquanto os imunizantes não estão disponíveis para todos, é essencial que aqueles cuidados básicos continuem a ser respeitados: fique em casa sempre que possível e, ao sair, use máscara e mantenha um espaço de 1,5 metro de outras pessoas que não façam parte de seu convívio diário. Prefira ambientes abertos ou bem arejados e lave sempre as mãos.

Enquanto o coronavírus tiver hospedeiros para infectar, ele continuará a mutar de maneiras que não podemos prever totalmente. E precisamos ficar de olho para que isso não se torne um problema ainda maior do que aquele que precisamos enfrentar no momento.

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Fonte: BBC

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