Tragédia de Mariana ainda deixa moradores com medo da água

A tragédia do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, está completando um ano e meio. E quem vive na área atingida ainda tem medo de consumir a água fornecida pelas companhias de saneamento.
A lama destruiu vilarejos e, agora, o mato cobre ruínas. Seu Moacir cultivava verduras e frutas com água do Rio Gualaxo, mas não confia mais na qualidade do que nasce lá.
“Até hoje não comi não. Não tenho coragem. Eles falam que é perigoso”, diz o lavrador Moacir Carneiro.
Seu Benjamin tem um sítio ao lado do Rio. “Tinha um punhado de peixe aqui nesse Rio aqui. Tem mais não”, comenta.
O rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, foi na tarde do dia 5 de novembro de 2015; 19 pessoas morreram.
Mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério foram despejados nos rios e chegaram até o mar, no Espírito Santo.
Um ano e meio depois, segundo o Ibama, as medidas adotadas pela Samarco para reduzir o impacto ambiental não foram suficientes.
“O que se esperava era que o evento estivesse definitivamente controlado. Não está. A cada chuva, o evento vai ser reavivado. E isso vai ficar bem claro com a cor da água”, afirma Marcelo Belizário, superintendente do Ibama.
A maior parte do rejeito de minério que desceu da barragem de Fundão se concentrou numa extensão de cem quilômetros, no leito e também nas margens dos rios. Em um ponto, dá para ver nitidamente que a lama continua sendo trazida pela correnteza. O Rio Gualaxo encontra com o Rio do Carmo e dá para perceber a diferença da cor da água.
A Fundação Renova, que assumiu o trabalho de recuperação ambiental, entregou um novo plano de contenção do carreamento de lama nos Rios.
“A nossa ideia é que até o final do ano muito desse carreamento esteja controlado porque o trabalho, todo o trabalho de recomposição de margens termina também no final deste ano”, afirmou Andréa Azevedo, diretora-executiva Fundação Renova.
Análises mostram que a água não pode ser consumida diretamente de nenhum dos Rios atingidos, nem pelos animais nem para a agricultura.
Até a água tratada por companhias de saneamento tem sido rejeitada por moradores. Em Cachoeira Escura, distrito de Belo Oriente, a dona Laurentina não confia no tratamento. “Não é boa pra tomar e nem pra cozinhar”, afirma.
A população prefere qualquer fonte de água que não venha do Rio. Num ponto, ela brota do chão. Os moradores fizeram caixas para transformarem em uma espécie de reservatório da mina. A água foi encanada e é da bica que eles tiram a água para beber.
Wothison vai três vezes por dia. “Eles falam que essa aqui também tá contaminada, só que eu não acredito porque é de mina, é impossível estar contaminada”, aponta.
Segundo o Instituto Mineiro de Gestão das Águas, Igam, a água do Rio Doce pode ser consumida depois de tratada. Ela é mais segura do que outras fontes que não são testadas.
“É um grande risco porque nem sempre que você vê uma água à flor da terra, minando, você tem que percorrer e descobrir de onde está vindo esta água. Ela recebe esgoto lá, mais atrás. Não é qualquer água que você pode chegar e usar porque você acha que ela está minando da terra e ela é limpa”, explica Regina Pimenta, analista ambiental/bióloga do Igam.
A Companhia de Saneamento de Belo Oriente declarou que criou novos pontos de captação. E que a água tratada atende aos critérios de potabilidade. A Fundação Renova afirmou que comprou equipamentos e fez obras de melhorias nos sistemas de abastecimento de água nas regiões onde a captação é feita no Rio Doce. E que criou captações alternativas em alguns locais.

Fonte: G1