Salvos pela mulher do fim do mundo

O RiR entra hoje no terceiro de seus sete dias mas já dá para cravar que, na noite de sábado, aconteceu o pior show da programação de 2017. O que é a perua Fergie? Caras e bocas e peitos e interesse artístico zero, mesmo com os reforços de Pabllo Vittar (em processo de super-exposição que logo poderá queimar seu filme) e Sérgio Mendes (esse, um velho desperdiçador de grande talento, musicalmente quase sempre andando para trás).
Se o Palco Mundo começara animado com o pop de arena do Skank (mesmo com o blablablá de indignação insentona de Samuel Rosa), o resto foi o esperado. Após o vexame da vocalista dos pasteurizados Black Eyed Peas, o jovem e articulado Shawn Mendes esgotou em 15 minutos as suas credenciais, passando por folk, pop-rock e baladas insossas; enquanto o Maroon 5 repetiu o que fizera na noite de abertura, o suficiente para empolgar a grande legião de fãs e cansar quem não é. Boa oportunidade para vazar mais cedo, novamente confirmar o bom funcionamento da dobradinha BRT e metrô e assim se se poupar para a maratona que, nesse domingo, será fechada por um artista bem mais inventivo, o ex-boy band Justin Timberlake.
Pelo descrito nos parágrafos acima, teria sido um dia perdido. No Mundo, sim; mas o Sunset salvou o sábado com sobras. A homenagem a João Donato funcionou nas bocas de Mariana Aydar, Lucy Alves, Tiê e Emanuelle Araújo, mais a canja de Donatinho, mesmo que merecesse outro horário – às 15h, com o sol a pleno vapor, o público era irrisório. Uma hora e meia depois, a Blitz e seus convidados Alice Caymmi e Davi Moraes tiveram melhores condições e não decepcionaram. O grande momento do sábado, no entanto, foi proporcionado por Rael e Elza Soares. Do alto dos seus 80 (e tanos não revelados) anos, que a obrigam se apresentar sentada num misto de cadeira e trono, “a mulher do fim do mundo” confirmou os acertos de seu último disco. Escalados em cima da hora, para tapar o buraco aberto pelo cancelamento do soulman Charles Bradley, Rael e Elza mereciam até fechar a noite, no Mundo. De certa forma, também deixaram um pepino nas mãos de Miguel. Mas o angelano de 31 anos segurou a onda com sua vigorosa mescla de R&B e rock, bem melhor ao vivo do que em seus discos. Grandes festivais têm esse componente de surpresa, confesso que não dava muita bola para a carreira do xará, mas esse filho de mexicano-americano com uma afro-americana esbanjou suingue e pressão. Perto do fim, a participação de Emicida em duas músicas foi protocolar, serviu apenas para confirmar a brodagem estabelecida entre os dois: “Oasis” é canção que pouca acrescenta e, em seguida, quando convidado a versar, o rapper paulistano limitou-se aos “vamos fazer barulho”, “braços para cima” e demais palavras de empolgação. Ao sair do palco, Emicida reforçou a debandada do público, que começou a trocar o Sunset pelo Mundo, onde Shawn iniciava seu show.
Nesse domingo, as opções são bem maiores, haja fôlego para, entre outros petiscos, acompanhar, no Sunset, os encontros de Johnny Hooker, Liniker e Almério e de Maria Rita com a cantora e compositora americana Melody Gardot; mais o lendário Chic de Nile Rodgers. Enquanto, no Mundo, a penúltima atração, Alice Keys, com seus altos e baixos, poderá servir de escada para Timberlake. Saberemos em breve.
Crédito imagens (em sequência, Elza, Rael, Miguel, Miguel & Emicida e Fergie): ACM

Fonte: G1