Meditações, direitos dos índios e música

Quem acreditou que tirando Dilma o Brasil iria melhorar já deve estar percebendo o buraco em que nos enfiamos. Então, antes da música fundamental, vamos para o breve #foratemer habitual. Pela enésima vez, golpes de estado, mesmo que seguindo esse novo formato, aparentemente constitucional, mas com interpretações distorcidas das leis, não são solução. Um ano depois, e para ficar num único e emblemático exemplo dos retrocessos, vemos os legítimos direitos dos índios serem atropelados. Chega de exploração e injustiça.
@@@@@ O regresso de Sakamoto
A trilha principal da semana que se encerra foi por streaming, “Async” (Milan Records), novo de Ryuichi Sakamoto, o tecladista, compositor, trilheiro de 65 anos, cuja carreira acompanho há três décadas. Por feliz coincidência, amanhã (7 de maio), a partir das 18h, a figura tão rara nos palcos brasileiros estará no Auditório do Ibirapuera, como uma das atrações do Concerto de Abertura da Japan House São Paulo.
Será noite, ao ar livre, com o palco virado para o parque, para conhecer mais um pouco de outro artista japonês de perfil similar, Jun Miyake, também compositor e trilheiro (entre outros filmes que trabalhou está “Pina” de Wim Wenders). O trompetista e multi-instrumentista de 59 anos abrirá os trabalhos, recebendo diferentes convidados: as cantoras Kyoko Katsunuma e Lisa Papineau, o cantor e compositor baiano radicado em Toronto Bruno Capinan (que fez um dos melhores discos brasileiros de 2016), integrantes do coral Vozes Búlgaras e um quarteto de cordas com músicos da Osesp.
Quanto a Sakamoto, vai iniciar sua parte solo e, em seguida, junto a Paula & Jaques Morelenbaum, retornará à casa de Tom Jobim. Paixão que os uniu no projeto Morelenbaum2/Sakamoto e gerou dois álbuns “Casa” (de 2001, gravado no residência encravada na encosta do Morro do Corcovado, sob o sovaco da estátua de Cristo, um dos endereços de Jobim em sua última década de vida, dividida entre o sítio Poço Fundo na serra Fluminense e o apartamento em Nova York nos arredores do Central Park) e “A day in New York” (2003).
“A sync” (Milan Records), primeiro disco de Ryuichi Sakamoto em oito anos, e criado após o tratamento para um câncer na garganta descoberto em 2014, é abrangente, vai de melodias quase clássicas ao experimentalismo. Piano acústico, órgão, sons eletrônicos, narrações em inglês, espanhol, japonês, italiano e francês se alternam, a princípio sem rótulos definidos, nas 14 faixas – a edição em vinil tem uma 15º faixa, “Water state 2″
De qualquer forma, dá para cravar que “Async” está mais perto de seu trabalho em discos e concertos com o alemão Alva Noto do que aqueles com Morelenbaum, com quem ele já fez inúmeros trabalhos, além do tributo a Jobim.
“Andata”, tema lírico, introduzido por piano solo que remete a muito do Sakamoto, prossegue em órgão solene e bachiano. A faixa seguinte, “Disintegration”, já no seu título, entrega mais o que predomina, sonoridade que parece sair de um piano preparado, remetendo ao koto (instrumento japonês) e percussão leve. Por sinal, pianos encontrados submersos após o tsunami que devastou Fukushima estão entre os instrumentos e elementos incorporados à música de “async”.
“Solari” é outro tema com melodia “sakamotiana”, novamente solene. Segundo o material de divulgação no site do artista, “Async” seria “uma trilha sonora para um filme imaginário de Andrei Tarkovsky”, o cineasta russo que tem na sua carreira o clássico de ficção científica “Solaris.
A recente experiência com o câncer deixou marcas. No início do tratamento, Sakamoto também escreveu a trilha de “The revenant” (“O regresso”), o filme do mexicano Alejandro González Iñarritu que garantiu em 2016 o primeiro Oscar para seu protagonista, Leonardo Di Caprio. Em seguida, mergulhou na criação de “Async”, apostando no prazer em viver. Na abertura de “Fullmoon”, ouvimos na voz do escritor Paul Bowles: “Pelo fato de nós não sabermos quando morreremos, costumamos pensar na vida como um bem inesgotável. (…) Quantas mais vezes você verá o nascer da lua cheia? Talvez 20, e ainda assim tudo parecerá ilimitado.” Este é o áudio da cena final de “O céu que nos espera”, o filme que Bernardo Bertollucci fez a partir do romance “The sheltering sky”, de Bowles, com trilha de Sakamoto. Música que reflete a vida, dores e prazeres ilimitados.
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Três CDs físicos que chegaram ontem também ganharam vaga, especialmente “Dos navegantes” (Biscoito Fino), do trio Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise, e “Desempena” (Natura Musical), do cantor e ator pernambucano Almério.
Projeto que começou após Edu Lobo botar a voz em duas de suas canções gravadas por Romero Lubambo e Mauro Senise no álbum anterior da dupla (“Todo sentimento”), “Dos navegantes” (Biscoito Fino) é delicado passeio pela obra do inventor da MPB. Aquele que, no decorrer da carreira, firmou-se como o principal discípulo e continuador de Tom Jobim, Edu foi o primeiro compositor da sua geração a avançar além do samba bossa-novista que imperou na primeira metade dos anos 1960. Para isso o carioca nascido em agosto de 1943 foi buscar inspiração nos sons e nas cores que povoaram as férias de sua infância passadas na Recife de seu pai, o também compositor e jornalista Fernando Lobo. Frevos, cirandas, maracatus tratados com intimidade e liberdade, que se juntaram a sambas, valsas, modinhas. Cardápio musical que teve reconhecimento instantâneo, ampliado nacionalmente graças aos festivais competitivos que tinham lugar cativo nas grades das emissores de TV.
Quando o trio Edu, Romero e Mauro se decidiu por esse disco, teve entre os critérios explorar composições menos gravadas, mas igualmente belas. Na abertura, um cântico de temática africana na letra de Gianfrancesco Guarnieri para o musical “Arena conta Zumbi” que escreveu com Edu e Augusto Boal, “A morte de Zambi”, ganha um quê de nipônico (talvez influência das muitas horas de Sakamoto neste semana) graças à flauta baixo de Mauro Senise, flutuando sobre a melodia apresentada por Edu (voz), Lubambo (violão) e Bruno Aguilar (contrabaixo). Esse quarteto, mas com Senise se alternando em outros tipos de flauta e sax alto e soprano, está presente em nove das 11 faixas, sendo que em uma delas, “Gingado dobrado” (letra de Cacaso), há ainda a percussão de Mingo Araújo. Nas duas outras, “Cidade nova” (parceria com Ronaldo Bastos, lançada por Edu em 1970 no disco “Cantiga de longe”) está apenas o trio que posa e tem os nomes na capa; enquanto em “Noturna”, a única inédita e instrumental no repertório, Romero (nesta tocando guitarra) e Senise (sax soprano) recebem o piano de Cristóvão Bastos (também o responsável pelo arranjo). Bela despedida de um daqueles álbuns que nos faz apertar a tecla repeat, e com show de lançamento no Rio no próximo sábado, 13 de maio, às 20, na Série Sala Jazz da Sala Cecília Meireles.
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Do Pernambuco que tanto influenciou Edu vem a outra boa surpresa da semana, “Desempena” (Natural Musical), segundo disco solo do cantor, compositor e ator Almério. Predominam os sons de um Pernambuco mais árido, da região do Agreste, onde vive Almério Feitosa, 37 anos, nascido em Altinho e radicado desde 2000 em Caruaru. Violões (do produtor, arranjador e autor de quatro canções Juliano Holanda), pifanos, percussão imperam, com intervenções discretas de teclados (Piero Biachi). Instrumental agreste, portanto, que dá suporte e dialoga com a voz contundente do cantor.
Dramático na dose certa, na faixa-título e de abertura, ele deixa claro suas intenções de viver sem amarras: “Quando você se fartar de viver mais ou menos / vai ter menos tempo, vai sair correndo / vai lembrar de mim”.
Os mesmos sentimentos são expressados em composições de Juliano Holanda como “Trêmula carne” (“De tédio não morro hoje /Trêmula carne / feito bandeira no alto / feito estrelas no mastro”) e “Do avesso” (esta num dueto com Elba Ramalho, tem versos que confirmam as vontades de mudança: “… para fazer a faxina detalhada / e limpar bem os quatro cantos da alma / e mandar toda a má energia embora”.
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Correndo por fora, “Um samba ao contrário” (independente) apresenta Débora Watts, fluminense de Saquarema, mas radicada há duas décadas em Nova York. Com carreira dedicada à música brasileira, agora, ela estreia como compositora assinando as 14 faixas disco. Samba, choro, samba-canção, valsa predominam, refletindo suas muitas e boas influências, num elenco que passa por Chico, Edu, Noel, Jobim… Numa primeira audição, bate na trave, saindo-se melhor a intérprete de belo timbre do que a autora apenas correta. Mas, sonoramente, o trabalho também se garante. Para gravar, acertadamente, Débora trocou os estúdios de Nova York pelo Toca da Raposa, no Rio, do músico Carlos Fuchs, cercada por alguns dos melhores instrumentistas em atividade, gente como Rogério Caetano (violão de 7 cordas), Guto Wirtti (contrabaixo), Everson Moraes (trombone), Luis Barcelos (bandolim e cavaquinho), Felipe Hostins (acordeom) e, ainda o marido americano, John Allen Watts (piano e produção). Terá novas doses e se crescer nos meus ouvidos, voltarei a “Um samba ao contrário”.
Crédito imagens: Divulgação foto de Sakamoto e reproduções de capas CDs

Fonte: G1