Hamilton deixa de pé a obra sólida de Milton ao adentrar a ‘Casa de Bituca’

Hamilton de Holanda adentra Casa de Bituca – Música de Milton Nascimento com respeito ao morador original, mas sem excessiva reverência. Tanto que, neste álbum dedicado à música gregária do compositor carioca de alma mineira, o bandolinista e compositor se permite soltar a voz em Mar de indiferença, música inédita que compôs com Marcos Portinari, coprodutor do disco lançado neste mês de maio pela gravadora Biscoito Fino.

Mar de indiferença é canção inspirada na trágica foto do menino sírio morto às margens das águas revoltas do mundo de hoje. O coro infantil disfarça a inabilidade vocal do virtuoso músico para o canto. Contudo, Casa de Bituca é habitada basicamente pelo cancioneiro composto pelo dono no período de auge artístico que vai de 1967 a 1983.

Na liderança do quinteto que formou com André Vasconcellos (baixo), Daniel Santiago (violão), Gabriel Grossi (gaita) e Marcio Bahia (bateria), Hamilton toca Milton com destreza. O toque geralmente frenético do bandolim do músico carioca, de criação brasiliense, chuta Bola de meia, bola de gude (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1980) de forma redonda para o universo instrumental do artista, mas é menos recorrente no disco. Hamilton mostra sensibilidade para respeitar os tempos (musicais) menos agitados de Clube da esquina nº 2 (Milton Nascimento, Lô Borges e Marcio Borges, 1972), por exemplo.

Em contrapartida, o desalento impresso na alma de Maria três filhos (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1970) é diluído no toque do Hamilton de Holanda Quinteto, assim como parte da emoção que pauta Canção da América (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1979). Mas a presença de Milton está evocada pelo vocais postos pelo baixista e arranjador do disco, Daniel Santiago, em Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974), sendo que Daniel também vocaliza Vera Cruz (Milton Nascimento e Márcio Borges, 1968).

O próprio Milton reabre a voz em Bicho homem (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1980), em bela gravação editada em single que, em abril, antecipou o álbuml. Homenagem a Milton no ano em que o artista completa 75 anos de vida, Casa de Bituca chega ao mercado fonográfico em edição dupla que junta CD e DVD com registros audiovisuais das gravações.

Por mais que Hamilton de Holanda Quinteto dê toques próprios às músicas de Milton em várias passagens, as arquiteturas das melodias, de modo geral, estão preservadas em Casa de Bituca, como exemplifica a abordagem de Conversando no bar (Saudades dos aviões da Panair) (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1974).

Na travessia que culmina com a oportuna reutilização do fonograma de Guerra e paz, música de autoria de Hamilton lançada pelo quinteto há seis anos no álbum Brasilianos 3 (2011) em gravação feita com a adesão de Milton, há espaço para a voz de Alcione, convidada de Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967). Não se trata de interpretação arrebatadora, como convém esperar de qualquer intervenção da cantora, mas a voz da Marrom dá um colorido a mais à Casa de Bituca, álbum em que o Hamilton de Holanda Quinteto deixa de pé a obra sólida de Milton Nascimento. (Cotação: * * * 1/2)

(Crédito da imagem: Capa do álbum Casa de Bituca – Música de Milton Nascimento. Foto de Rafaê Silva)

Fonte: G1