ARTUR RODRIGUES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – “Teve um cara aí que me contratou para te matar amarrado”, dizia uma mensagem recebida por um radialista paraguaio, baseado em Pedro Juan Caballero (Paraguai), na fronteira com o Brasil. “Você vai resolver ou já foi para você, tá certo”.
A mensagem, enviada por WhatsApp, em português, propunha que o profissional “resolvesse o problema”, indicando que um suposto pistoleiro gostaria de receber dinheiro para não matá-lo.

O caso, em investigação pela polícia paraguaia, faz parte da rotina de quem faz jornalismo naquela região, hoje sob os holofotes devido a uma onda de violência.

Ao menos 10 profissionais da imprensa foram assassinados nas regiões próximas à fronteira entre os dois países. As mortes estão em grande parte relacionadas à ação do crime organizado.

A região é dominada por facções brasileiras, com ação mais forte do PCC (Primeiro Comando da Capital). No entanto, muitas vezes os crimes são cometidos como represália por desavenças políticas, sem ligação com os grupos criminosos.

O caso mais recente foi o do brasileiro Léo Veras, do site Porã News, que foi assassinado com 12 tiros no ano passado, em sua casa, quando jantava com a família em Pedro Juan Caballero.
Além de Veras, o outro jornalista brasileiro morto no período foi Paulo Rocaro, em 2012, em um crime cuja motivação seria uma disputa política na região.

Os outros oito jornalistas mortos localizados pelo jornal Folha de S.Paulo são paraguaios. Naquele país, muitos profissionais da imprensa andam com escolta policial, alguns até armados.

No casos dos ataques, porém, poucos escapam dos pistoleiros que chegam atirando, algumas vezes com armas de grosso calibre.
Em 2015, o radialista Gerardo Seferino Servian Coronel, 45, foi assassinado em Ponta Porã. Coronel trafegava de moto quando foi interceptado por dois pistoleiros em outra motocicleta. Seis tiros atingiram a vítima.

No caso de Leo Veras, a suspeita é que ele tenha desagradado o crime organizado que atua naquela região.

Até o momento, Waldemar Pereira Rivas, conhecido como “Cachorrão”, foi denunciado pelo crime, segundo informações divulgadas pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Uma das linhas de investigação aponta que Veras teria sido morto após um boato de que ele avisou a polícia sobre a identidade falsa de um homem supostamente ligado ao PCC, preso em uma briga de trânsito. Revoltado, por essa versão, o homem teria ordenado sua morte.

O homem que a polícia apontou como suspeito de ser o mandante do crime é Ederson Salinas Benítez, conhecido como Salinas Ryguasu, que segue em liberdade.

Veras chegou a ser ameaçado anteriormente, em 2013, após noticiar informações a respeito da morte de outro jornalista, o paraguaio Carlos Artaza, em Pedro Juan Caballero. Em entrevista a um documentário feito para o programa Tim Lopes, da Abraji, ele já cogitava a possibilidade de acabar assassinado.

O jornalista passou alguns anos andando com escolta policial, mas depois dispensou a segurança fornecida pelo Estado.

Segundo jornalistas locais, embora o Estado forneça esse tipo de segurança, é muito dispendioso ficar com a escolta durante muito tempo, uma vez que isso envolve vários gastos extras –cabe à pessoa fornecer a alimentação dos agentes, por exemplo.

Em 2020, o programa Tim Lopes entrevistou o jornalista paraguaio Candido Figueredo, que anda com escolta há 25 anos –ele também disse andar armado. “Estou consciente que podem me matar na hora que eles quiserem”, disse durante o documentário.

Em Pedro Juan Caballero, a Praça do Jornalista foi batizada em homenagem ao jornalista investigativo Santiago Leguizamón, morto com 21 tiros em 1991.

“O problema na fronteira sempre existiu, sempre vai existir, porque a gente faz a cobertura de eventos meio pesados, traficantes, essas coisas. Mas no geral a gente já convive e passa desapercebido”, diz Firmino Benítez, do sindicato dos jornalistas do departamento de Amambay.

Apesar de tudo, para ele, os problemas enfrentados pelos jornalistas ainda são “mínimos” no momento. Benítez diz que ameaças muitas vezes são tentativas de extorsões, vindas de criminosos de dentro da prisão. Além disso, segundo ele, também haveria supostos jornalistas com envolvimento com o crime.

Do outro lado da fronteira, João Carlos Torraco, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais na Região da Grande Dourados, diz que a situação é um pouco mais tranquila.

Mesmo assim, afirma ele, os jornalistas da região vivem pisando em ovos. Seja devido a ameaças de agressão por políticos ou tendo cautela ao citar qualquer nome que possa estar relacionado ao crime organizado.