Chama o doutor Oswaldo! De novo!

Os primeiros institutos de pesquisa de enfermidades tropicais foram fundados na Europa – como ocorreu na Inglaterra, por exemplo, quando em 1887 o país padeceu com uma epidemia de malária (a primeira e única). Qual a importância dessa informação? É que ela desmonta, definitivamente, o que ainda sobrevive no Brasil da teoria colonialista que tenta explicar a constante recidiva de doenças tropicais valendo-se de um determinismo climático – assim como, pelo clima quente, já houve quem justificasse o subdesenvolvimento socioeconômico de diversas nações. No plano da saúde pública, em nosso País, essa mentalidade sempre imperou, até porque ela calça feito luva a inoperância eterna do estamento burocrático governamental na promoção de um viver digno à população. Nada se faz, por exemplo, no campo da prevenção de enfermidades endêmicas que ciclicamente se tornam epidemias. É o caso da febre amarela, doença aguda hemorrágica viral, transmitida ao homem por mosquitos infectados. Segundo a OMS, se houvesse em nossas plagas planejamento estratégico preventivo e aplicação racional de recursos, as chamadas pragas tropicais desapareceriam de uma vez por todas.

Falou-se em planejamento estratégico. Eis então um dado de chorar, justamente pela ausência de ações da União: somente 50,3% dos brasileiros têm serviço de saneamento básico. Ou seja: mais de 100 milhões de habitantes recorrem a fossas e rios no descarte de dejetos. É inumano, senhores governantes, é inumano, senhores ministros da saúde. Para que a população de todas as cidades tenha acesso a saneamento é necessário investir R$ 1,5 bilhão até 2035. Sabe quando isso vai acontecer? Não dissimulem não, caros políticos, os senhores sabem que nada farão nesse sentido – ou seja, não vai acontecer nunca. Clima não carrega culpa, os dirigentes, sim: não praticam a profilaxia.

VACINAÇÃO Posto de Saúde em São João de Meriti, na Baixada Fluminense: quilômetros de fila e nenhuma dose de vacina (Crédito:Gabriel de Paiva)

Estamos novamente às voltas com doenças tropicais, e deixemos claro que muitas delas são transmitidas pelo mesmo mosquito, o Aedes aegypti – e não foi o mosquito que evoluiu, é o Brasil que voou para trás no quesito saúde pública. Até a quarta-feira 17, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais contavam 45 mortos (260 óbitos no País de junho de 2017 a janeiro) e mais 19 estados estavam infectados. Às filas em caracóis, nas portas dos postos de saúde, chega gente na madrugada e lá espera até 24 horas por uma dose de vacina. Em São Paulo (com todo o estado considerado região de risco e a cidade de Mairiporã em condição de calamidade pública) zerou o estoque das clínicas particulares. No Rio de Janeiro, oito milhões de pessoas carecem de cobertura. É natural que a população esteja apavorada. Há dois anos o signatário desse artigo escreveu um ensaio intitulado “Chama o doutor Oswaldo”. Tratava da febre amarela. Não sem motivo, portanto, vai agora novamente esse título, acrescido do “De novo!”. O que eu quero dizer é que, entre o texto antigo e o atual, nada foi feito. O Aedes comemora. Mas que esperança vã, a minha, querer que em tão curto espaço de tempo alguma providência tivesse sido tomada, se também nada se fez do início do século 20, quando o doutor Oswaldo Cruz erradicou a fabre amarela, até os dias de hoje.

Está-se novamente lutando contra a febre amarela, e de nada adianta o ministro Ricardo Barros dizer que tudo anda sob controle enquanto fracionam vacinas, até porque é protocolo da OMS determinar o fracionamento justamente quando a coisa está descontrolada. Fala-se, no Brasil, que o fracionamento imuniza por oito anos. Há dúvidas: a OMS ainda avalia se a validade não se dá apenas por doze meses, e tanto é assim que só a dose completa (99% de capacidade de imunização para a vida toda) vale para quem for ao exterior.

Um relatório da OMS cala a boca dos que defedem a inevitabilidade de nós padecermos com esses males. O surto teve início em 2016, em Minas Gerais, e então foi se alastrando para o Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e, agora, São Paulo. E o que fez o Ministério da Saúde? Viu o tempo passar. O mesmo relatório, para vergonha dos governantes pátrios, aponta o sucesso da erradicação da febre amarela em países paupérrimos como Angola e República Democrática do Congo. Igualmente pobre, Uganda viu a enfermidade ser extinta com a aplicação, nas primeiras horas, de 627 mil vacinas, cobrindo 94% da população de risco. Registraram-se apenas três óbitos.

Tem-se a febre amarela. E tem-se a zika, responsável já pelo nascimento de cerca de quatro mil crianças com distúrbios neurológicos, e tem-se a dengue, e tem-se a chikungunya. E tem-se vidas perdidas porque um mosquito cismou de avoar perto da vítima, cismou de picar a vítima. O que é revoltante é que diversas dessas doenças estavam erradicadas e, se hoje voltam, é devido às irresponsáveis gestões públicas. Não bastasse o epidêmico descaso, chegam a nós campanhas que nos colocam como agentes do extermínio: jogue fora o seu pratinho de água da plantinha e tudo estará arrumado. Tudo bem, podemos ajudar.

Mas impedir que se chegasse a essa calamitosa situação é dever legal de quem cuida da saúde pública, bastaria vacinar sistematicaticamente – o que querem é culpar a população, algo similar a dar uma arma para cada cidadão e dizer-lhe: cuide de sua segurança pública. Esse lavar as mãos da União, sobre o qual está montado o sistema de saúde do País, também é criticado pela OMS, sobretudo a descentralização que dá carta branca a 5,7 mil prefeituras, podendo elas tomarem as decisões que bem entenderem no combate a doenças. Quem controla isso tudo? Ninguém controla nada!

Não foi o mosquito Aedes aegypti que evoluiu, foi o Brasil que voou para trás no quesito da saúde pública

No Brasil, na maiora das vezes, a função de ministro da Saúde têm-se prestado ao exercício da política e da politicagem. Há três meses, enquanto o ministro Ricardo Barros anunciava que a febre amarela estava controlada, o site oficial de seu próprio ministério alertava: “elevado potencial de contaminação em áreas urbanas”. Para encontramos um brasileiro que soube separar ciência e política voltemos a 1907, chamemos Oswaldo Cruz. Havia a teoria de que o Aedes egypti era filho do clima: ele só aparecia quando as chuvas de verão despencavam sem trovoadas. O sanitarista Oswaldo Cruz, esse sim, fez ciência, mas já naquela época havia políticos que misturavam tudo com oportunismo: fizeram-lhe oposição e insuflaram a Revolta da Vacina (também contra a varíola). Oswaldo Cruz erradicou as doenças. Se elas voltam, nada a ver com chuvas, verão, trovoadas. Tem a ver, isso sim, com as lacunas na prevenção e nas campanhas de vacinação.

Fonte: ISTOÉ Independente

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