Com dólar alto, brasileiros embarcam menos ao exterior; viagens aos EUA seguem em alta

A cotação do dólar segue batendo recorde atrás de recorde frente ao real, e muitos brasileiros estão ficando preocupados com as férias deste ano. Vai ser possível ir para o exterior?

Entrada para carros do Walt Disney World, na Flórida — Foto: John Raoux/AP PhotoEntrada para carros do Walt Disney World, na Flórida — Foto: John Raoux/AP Photo

Entrada para carros do Walt Disney World, na Flórida — Foto: John Raoux/AP Photo

Na quarta-feira, dia em que a moeda bateu seu quarto recorde consecutivo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o dólar mais baixo permitia empregadas domésticas irem à Disney, nos Estados Unidos – e que a alta do dólar fará “todo mundo conhecer o Brasil”.

Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) indicam que os brasileiros já estão viajando menos para fora do país: no ano passado, as empresas aéreas transportaram 9,1 milhões de passageiros entre o Brasil e o exterior, uma queda de 2,6% em relação a 2018. Em dezembro, os números mostram que a cautela cresceu – foram embarcados 757,9 mil passageiros, 13,4% a menos que no mesmo mês de 2018.

Em todo o ano passado, no entanto, o dólar subiu 3,5%. Este ano, a alta vem muito mais brusca: até quarta-feira, a moeda já acumulava valorização de 8,5% frente ao real, sugerindo que pode haver uma retração maior este ano.

Segundo o presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), Roberto Haro Nedelciu, é a instabilidade do dólar que prejudica mais o setor. Isso porque as compras de viagens são feitas com pagamentos em reais, muitas vezes parcelados e com o câmbio da data de compra. Já os operadores pagam os fornecedores à vista, pelo câmbio do dia.

“Então para nós essa mudança, essa variação para cima e para baixo, prejudica bastante”, diz Nedelciu.

Viagens aos EUA

No ano passado, pelo menos, os brasileiros não parecem ter tirado os Estados Unidos da lista de destinos das férias. O escritório nacional de viagem e turismo dos EUA estimava, em outubro, que o país receberia 2,2 milhões de visitantes brasileiros em 2019 – o mesmo número registrado em 2018, levando o Brasil ao sexto lugar entre os países que mais enviaram turistas aos Estados Unidos.

Mas a estabilidade vem após dois anos de crescimento, nos quais o número de turistas cresceu quase 30% (e praticamente recuperou as perdas de quase 25% em 2015 e 2016), segundo dados da agência oficial de estatísticas dos Estados Unidos (BEA, na sigla em inglês).

Brasileiros nos EUA — Foto: Economia G1Brasileiros nos EUA — Foto: Economia G1

Brasileiros nos EUA — Foto: Economia G1

Os números também mostram que caiu, em 2018, o percentual de brasileiros que frequentaram parques temáticos como a Disney durante suas viagens aos EUA: naquele ano, foram 45,5% do total, ante 49% em 2017. No pico da série, em 2014, 51,8% dos brasileiros que estiveram nos Estados Unidos visitaram um parque temático. Os dados de 2019 ainda não foram disponibilizados.

Nedelciu, da Braztoa, aponta que ainda não foi possível sentir neste início de ano uma variação na procura por viagens à Disney – cuja alta temporada acontece apenas nas férias de julho. Já nas viagens ao exterior, em geral, ele diz acreditar que tenha havido uma pequena queda, “mas não foi significativa”.

Os números consolidados de 2019 da entidade só serão divulgados em março. Em 2018, no entanto, a entidade aponta que houve um crescimento de 23,3% nos embarques internacionais, com destaque para uma alta de 45,4% para a América do Norte.

Desaceleração e busca por outros destinos

A operadora de turismo CVC, uma das maiores do país, diz ter identificado uma “pequena desaceleração” na demanda de clientes para Orlando em 2019, em comparação com 2018. No ano passado, a companhia embarcou 80 mil clientes para a cidade, onde fica a Disney. Com a disparada do dólar, a operadora vem oferecendo uma taxa de câmbio reduzida nas vendas.

Segundo a empresa, a alta na moeda também tem resultado no aumento da procura por outros destinos, como Buenos Aires, destino que viu uma alta de quase 20% na busca de clientes, e países da Europa como Portugal, “que tem se destacado em termos de competitividade na comparação com destinos dolarizados”.

Orlando, no entanto, segue como terceiro destino internacional mais visitado pelos brasileiros, aponta a CVC.

A Flytour Viagens informou que a Disney continua sendo um dos destinos mais procurados, mesmo com a mudança de patamar do câmbio. No entanto, diz que “houve uma queda (na procura) após o aumento da cotação.”

Dólar alto faz viagens ao exterior diminuírem pela primeira vez em 10 anos

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Se os brasileiros seguiram indo aos Estados Unidos, os gastos parecem estar mais contidos.

Mesmo em 2018, os brasileiros, apesar de mais numerosos, gastaram nos Estados Unidos quase o mesmo que em 2017. O BEA aponta que o total gasto em bens e serviços de turismo, incluindo passagens, ficou em US$ 11,5 bilhões naquele ano – uma alta de apenas 0,25% sobre 2017. Os dados referentes aos gastos de 2019 ainda não foram divulgados.

Dados do Banco Central, que não trazem especificação por destino, mostram que os brasileiros estão mesmo gastando menos lá fora. Em 2019, os gastos no exterior somaram R$ 17,593 bilhões – uma queda de 3,7% em relação ao ano anterior, e o menor volume em três anos.

Gastos de brasileiros no exterior
Em US$ milhões
Fonte: Banco Central

Efeitos do coronavírus

Se a alta do dólar ainda não se refletiu mais fortemente nas viagens internacionais dos brasileiros, o setor já sentiu algum baque vindo de outro lado: da Ásia, causado pelo coronavírus.

“Para o exterior imediato caiu um pouco por causa dessa crise de saúde que está tendo aí, coronavírus”, diz o presidente da Braztoa.

“A gente começou o ano, um janeiro bem atrativo. Só que agora já aumentou muito os cancelamentos, muitas pessoas até que estão pra ver as Olimpíadas do Japão, estão com viagens agendadas até Europa, pessoal tá com receio às vezes dessa doença e acabam cancelando. Estamos na dúvida. Janeiro foi bom, fevereiro já está sendo meio estranho, bem conturbado”, diz Roberto Nedelciu, que mantém o otimismo: “vamos esperar pra ver o que vem. A esperança nossa é que vai melhorar bastante”.

Fonte: G1

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