Teimosamente, 2021

“Do alto do Olimpo dos clichês, declaro que vou escrever sobre a descoberta de fazer turismo na própria cidade onde eu moro.”

As aspas não são gratuitas. Elas estão aí para ajudar a sua memória, caso seja um leitor frequente da coluna, ou esclarecer quem está chegando agora que essas palavras já foram escritas. Aqui mesmo.
Foi na minha primeira coluna de 2020, quando Covid-19 era uma expressão muito exótica que a gente achava que só teria a ver com uma cidade na China chamada Wuhan. Que diferença um ano faz…

Passamos 2020 quase todo mais brincando com a ideia de viajar do que propriamente viajando. No final do ano, é verdade, circulei pelo Brasil —Fortaleza, Natal, Salvador, Rio. Mas meu passaporte está ali quieto, na primeira gaveta do meu estúdio, de onde escrevo este lamento.

Sim, lamento. Quase um ano depois de começarmos a encarar um isolamento global, que nos obrigou a esquecer que estamos aqui para circular, vejo com pouco otimismo os horizontes de um turista —pelo menos até meados de 2021.

Trapalhadas logísticas, burocráticas e até políticas serão obstáculos para nós, brasileiros, recebermos as vacinas salvadoras que valerão como um visto de entrada para a maioria dos países. Até podermos novamente rodar o planeta com liberdade, mas amargaremos por um bom tempo no cenário internacional o estigma de sermos uma piada de mau gosto no combate à pandemia.

Mas você já sabe de tudo isso, especialmente você que, como eu, sonha poder estar sempre viajando. E, se este lamento parece, à primeira vista, um ramerrão, quero esclarecer que a função dele não é espantar esse nosso desejo de mobilidade, mas sim afirmar minha teimosia de turista.

Sim, teimosia. Porque, mesmo com todas essas dificuldades, eu não penso em desistir. Se um ano atrás, com aquele primeiro parágrafo que reproduzi hoje aqui, eu celebrava a “surpresa” de ter redescoberto São Paulo, uma das cidades onde moro, como destino turístico, neste ano não vou me contentar com tão pouco.

Esse longo hiato de viagens me deixou ainda mais “faminto”. Em 15 de janeiro de 2020 eu chegava do meu último destino internacional, Paris —uma passagem rápida de apenas quatro dias, da qual voltei com várias coisas anotadas para fazer na minha visita seguinte à capital francesa, programada para abril. Preciso escrever o que aconteceu?

Mas se perdi as atrações da última primavera europeia, estou animado para o verão no continente. Estou salivando pelas férias que não tive em 2020 e para experimentar a cidade que mais visitei na minha vida (provavelmente já passei por Paris mais de 50 vezes) como se ela fosse nova para mim.

E não pararei por ali. Mergulharei com o mesmo entusiasmo em Bangcoc, minha segunda cidade favorita entre as que já visitei, banhado por seu calor úmido e seus aromas sinestésicos como se naquela primeira viagem ao Sudeste Asiático.

Irei aqui pertinho, em Buenos Aires, celebrar a fina camada de empáfia dos meus amigos argentinos que esconde uma simpatia e um bom humor dos mais afáveis entre os nossos vizinhos da América Latina.

Perderei-me nas ladeiras de Lisboa madrugada adentro como se fosse o mesmo viajante de 20 anos atrás redescobrindo uma cidade que julgava adormecida.

Serei feliz no anonimato dos cruzamentos abarrotados de Tóquio, nas estradas de terra de Lalibela, na Etiópia, no espelho d’água de Uyuni (Bolívia), completando a ronda da Piazza del Campo, em Siena (Itália), numa igreja em Goa (Índia), num tuk-tuk em Luang Prabang (Laos), na beira de um lago em Rose Harbour (Canadá), numa tenda tuaregue em Timbuktu (Mali).

Apenas memórias recicladas, eu sei. Mas são justamente elas que alimentam essa minha tal teimosia.

E é a própria teimosia que me mantém vivo, como se eu estivesse permanentemente atado à proa de uma embarcação, com minha obstinação por explorar o mundo constantemente me perguntando: “E agora, para onde?”.

2021, agora é com você!

Fonte: Folha de S.Paulo

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