Para quem gosta de história, de comida e encara uma leitura longa em inglês, sugiro o e-book “How to Feed a Dictator” (“Como Alimentar um Ditador”), lançado no ano passado pelo jornalista polonês Witold Szablowski.

O autor entrevistou cozinheiros de cinco célebres autocratas do século 20: Saddam Hussein (Iraque), Idi Amin Dada (Uganda), Enver Hoxha (Albânia), Fidel Castro (Cuba) e Pol Pot (Camboja). Destes, três eram paranoicos com a possibilidade de serem envenenados pelo próprio chef.

O aparato de vigilância da Albânia –o mais fechado dos regimes da Cortina de Ferro– hoje soa ridículo como o sapatofone de Maxwell Smart, o pateta Agente 86 da série satírica criada por Mel Brooks nos anos 1960.

O cozinheiro de Hoxha depôs sob anonimato, pois ainda teme represálias. Nos dias plúmbeos, ele não tinha autonomia nem para quebrar um ovo sem a aprovação de um comitê de burocratas.

O homem, uma vez, foi visitar a mãe no interior do país. A cada vez que saía da casa da velha, topava com uma dupla de agentes fingindo ler jornal num carro estacionado. Dava-lhes “bom dia” e era cumprimentado de volta.

Saddam exigia que uma amostra de cada prato fosse armazenada numa geladeira que seus jagunços guardavam. Se ninguém da família passasse mal em questão de dias, a comida ia para o lixo.

Após a guerra de 1991, Saddam replicou o esquema noia nas dezenas de palácios que mandou construir pelo país.

Para zonzear perseguidores, ele dormia uma noite em cada lugar –mas todas as cozinhas funcionavam a pleno vapor sete dias por semana, e os cozinheiros nunca sabiam se o patrão estava lá ou não.

Otonde Odera, chef de Idi Amin, escorregou pelos fundos do palácio quando um dos filhos do ditador comeu quilos de arroz doce e passou mal. Ele levou o rapaz para o médico do presidente, enquanto o pai atirava no teto e jurava vingança pelo envenenamento.

Eram gases. O alívio veio com um “tremendo peido”, nas palavras de Odera.

A obstrução abdominal do brasileiro Jair é sólida e perfeitamente compatível com complicações decorrentes da facada que o furou em 2018. Ainda assim, paira no ar uma boataria fétida sobre envenenamento.

O broto da conspiração surgiu semana passada, quando um cozinheiro gaúcho se queixou da possibilidade (nunca confirmada) de precisar preparar o pasto presidencial.

Na mesma rede social, um comentarista aleatório propôs purgante na comida do ilustre visitante. O estábulo reagiu: pronto, querem assassinar o Minto.

Na quarta-feira (14), dia da internação do presidente, o youtuber Rodrigo Constantino levantou lisamente a lebre do envenenamento. No dia seguinte, esparramou-se a cascata de que um exame apontou chumbo no sangue de Bolsonaro. O conto está contado.

Só temem comida envenenada os tiranos. Eles dormem e acordam com o próprio carma, sabem que o ódio e a traição lhes respingarão fatalmente –por vezes, de modo literalmente fatal. Para nós, pessoas comuns, é algo que nem nos passa pela cabeça.

(Siga e curta a Cozinha Bruta nas redes sociais.  Acompanhe os posts do Instagram, do Facebook  e do Twitter.)

Fonte: Folha de S.Paulo