Sem Carnaval, hotéis de Salvador, Recife e Rio têm desconto e ocupação mediana

Nas ladeiras de Olinda, o sobe e desce foliões deu lugar ao vaivém dos carros. No Rio, o silêncio dá o tom dos barracões das escolas de samba, enquanto em Salvador os trios elétricos ficaram nas garagens.

Na semana que representaria o pico do turismo, cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Olinda vivem um clima de calmaria com o cancelamento do Carnaval por causa da pandemia do novo coronavírus.

Os hotéis, que chegam a ter ocupação de todos os leitos neste período e preços até seis vezes mais caros, este ano têm uma média de ocupação entre 55% e 65% e descontos no valor das diárias.

No Rio, a ocupação dos hotéis para o Carnaval está em 65%, bem abaixo do ano passado, quando a mesma taxa foi de 98%. Mesmo assim, empresários do setor avaliam que o cenário poderia ser ainda pior, afirma Alfredo Lopes, presidente da ABIH-RJ (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro).

“Essa taxa está até interessante, achávamos que iria afetar mais ainda. Até porque foram tomadas medidas restritivas em São Paulo, maior emissor [de turistas] para o Rio”, ele diz.

Segundo Lopes, viajantes que têm como origem o estado de São Paulo representam 70% de todos que irão se hospedar nos hotéis do Rio durante o Carnaval. Ele também diz que o perfil dos hóspedes mudou: se antes eram os jovens que viajavam à cidade para festejar nos blocos de rua, neste ano as famílias representam a maior parte dos turistas.

Em Salvador, o cenário é semelhante. Os cerca de 400 hotéis da cidade costumam faturar, juntos, cerca de R$ 150 milhões no Carnaval. Em um ano normal, este valor representa cerca de 11% de todo o faturamento anual dos hotéis, segundo a ABIH Bahia.

Neste período, a ocupação dos hotéis da cidade chega a 100% e o preço médio dos pacotes chegam a ser seis vezes maiores do que em dias normais.

Este ano, sem as festas, blocos e camarotes, a expectativa é que o faturamento dos hotéis de Salvador no Carnaval caia para cerca de R$ 40 milhões.

Isso porque, apesar da previsão de uma ocupação razoável, em torno de 60%, os preços praticados estão bem abaixo do que o usual para o período da festa. Em média, houve um acréscimo entre 10% e 15% nos preços das diárias em relação os dias normais durante este período de pandemia.

O impacto não inclui apenas os dias de Carnaval, já que o período pré-carnavalesco em Salvador é marcado por festas populares como a Lavagem do Bonfim e o Dia de Iemanjá, que também atraem turistas, além dos ensaios de verão de bandas de axé e blocos afro. A média de ocupação dos hotéis em janeiro foi de 50% contra 75% no mesmo período em 2020.

Sem a festas, a maioria dos turistas que vêm para Salvador neste Carnaval estão em busca do chamado turismo de sol e praia. Por isso, tem sido maior a procura por resorts e pousadas próximo a praias, que são mais abertos e tem construções mais horizontais, permitindo um melhor distanciamento social entre os hóspedes.

Ainda assim, o movimento registrado ainda é inferior ao de um ano normal. “As pessoas ainda não estão viajando como antes. A retomada vai depender diretamente da vacinação”, afirma Luciano Lopes, presidente da ABIH Bahia.

O cancelamento das festas também representou um baque no aluguel de imóveis por temporada nas capitais. O Airbnb, plataforma de aluguel de apartamentos por temporada, não divulga a taxa de ocupação nos seus imóveis.

Ainda assim, a empresa confirma que desde maio foi identificado um novo perfil de turistas –famílias buscando por casas inteiras no campo e em cidades pequenas de praia, a até 300km dos centros urbanos.

Nas capitais e cidades que tem o Carnaval como principal atrativo, como Olinda, a maioria dos imóveis sequer foram anunciados para aluguel.

O músico Gabriel Melo, que mora em Olinda, sempre espera o Carnaval chegar para ganhar um extra alugando a sua casa por cinco dias.

Com o cancelamento da festa, deixou de faturar entre R$ 10 mil e R$ 15 mil: “Não faz sentido as pessoas alugarem casas em Olinda neste período. Não vai ter Carnaval. Muito difícil acontecer.

Alguns moradores de Olinda chegaram a baixar em até 70% o valor do aluguel e, mesmo assim, não conseguiram encontrar quem estivesse disposto a pagar.

“Em Olinda, é praticamente zero a procura. Ninguém consegue alugar nada”, diz o presidente da ABIH-PE (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Pernambuco), Eduardo Cavalcanti.

De acordo com dados da associação, no mesmo período do ano passado, a rede hoteleira de Recife registrou 85% de ocupação e Olinda teve 90%. Neste ano, a perspectiva é de apenas 55% nas duas cidades.

Para Cavalcanti, mais do que o cancelamento das festas em si, a suspensão do feriado e dos pontos facultativos representou o maior baque.

“Foi mais grave para o setor do que a própria suspensão do festejo. Muita gente fugiria do Carnaval para Porto de Galinhas, no litoral sul, ou para Gravatá, no interior, mas agora vai ter que trabalhar”, explica.

A maior preocupação do setor hoteleiro é com o cenário pós-Carnaval, já que a partir de março começa o período da baixa estação, que se estende até junho.

Em geral, o turismo de negócios, com eventos comerciais, convenções e congressos, é a principal fonte de renda do setor hoteleiro neste período. Mas com a pandemia, a maioria dos eventos foram cancelados.

Para completar, o colchão financeiro que os hotéis fazem no verão e no Carnaval para segurar os custos da baixa estação, este ano não vai existir.

“Enquanto não tiver vacinação eficiente, que imaginamos só a partir do segundo semestre, vamos sofrer”, diz Alfredo Lopes, da ABIH do Rio.

Ele diz que, como solução temporária, os empresários do turismo têm buscado segurar os custos, negociando com os sindicatos dos funcionários, e obter junto ao governo algum tipo de postergação no pagamento dos impostos.

Fonte: Folha de S.Paulo

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