Rima com turismo

Antes de nossas vidas serem limitadas por um certo vírus, uma modalidade de turismo estava começando a crescer em São Paulo, um reflexo de uma tendência pelo mundo —os walking tours. Ou, como a Polícia Militar em São Paulo prefere chamar, uma “manifestação”.

Pelo menos foi essa a desculpa que eles deram para seguir, no dia 24 de outubro, o trabalho incrível e pioneiro de Guilherme Soares Dias, responsável pelo site guianegro.com.br. Naquele sábado, pouco mais de um mês atrás, o grupo de 12 pessoas foi seguido e filmado por policiais enquanto passava por locais associados à história dos negros na região central da capital.

A ideia em si está longe de ser uma novidade. Com certa frequência, antes da pandemia, recebia convites para essas excursões urbanas, muitas vezes para descobertas arquitetônicas ou somente para seguir os passos de um personagem pelo seu bairro, por exemplo, Adoniran Barbosa no Bexiga.

Nenhuma dessas jornadas, no entanto, tinha até agora recebido a “honra duvidosa” de uma escolta.

Se as aspas não deixam claro, escrevo com todas as letras: não se tratava de honra alguma, mas sim de uma atitude preconceituosa contra um agente cultural focado na promoção da cultura negra.

Em um país em que autoridades máximas desafiam as evidências de que existe racismo, o último parágrafo pode parecer uma provocação. Que bom.

Pois somos exatamente isso, uma nação racista que, na negação da sua condição, não se vê obrigada a fazer nada além de postar quadrados negros nas redes sociais para “resolver” um incidente tão grave e complexo quanto o assassinato de Beto Freitas, na semana passada, por dois contratados do Carrefour que agiam como “seguranças”.

Estou ciente que abuso das aspas na coluna de hoje. Mas ou é isso ou vou acabar usando palavras que não ficariam bem impressas num jornal —menos ainda imortalizadas digitalmente numa tela virtual.

O crime da semana passada, que teve a crueldade involuntária de ter sido revelado ao país no Dia da Consciência Negra, é quase certamente o acontecimento mais hediondo de um ano em que a competição por esse título talvez esteja a mais acirrada da história.

Menos grave, mas não menos intimidadora, a perseguição gratuita ao grupo de Guilherme Dias, que também divulga seu trabalho pelo excelente perfil do Instagram @guianegro, é outra face desse racismo que assombra o Brasil e que o jornalista —com informação, história e cultura— tenta reverter com sua preciosa iniciativa.

Em um país que tem uma herança escravocrata vergonhosa, a conexão do que o passeio por São Paulo faz com esse passado (tão presente) é fundamental. Guilherme já se aventurou por outras cidades e tem planos de expandir os tours por diversos lugares que evocam narrativas valiosas da nossa identidade, que é também negra, não podemos negar.

Mas será que ele vai conseguir fazer isso em paz?

Não enquanto seguirmos liderados por pessoas que negam a existência do racismo.

Estamos às vésperas de uma nova possibilidade de voltarmos a viajar pelo planeta. Pelas boas notícias da chegada de vacinas eficazes contra a Covid-19, podemos ter a esperança de retomarmos nossos itinerários.

Com o dólar nas alturas, porém, devemos nos reencontrar com essa nossa paixão com muita cautela. Mas logo as mentes curiosas voltarão a explorar povos e tradições diferentes. Quem sabe até a África!

Já estive várias vezes no continente que ajudou (e muito) a sermos o que somos hoje no Brasil. Tirei lições incríveis dessas viagens, de Angola a Moçambique, de São Tomé e Príncipe a Cabo Verde e mesmo de Madagascar a Etiópia, para citar dois países que aparentemente não têm uma ligação direta conosco.

Mas esses destinos, reconheço, serão por um bom tempo ainda privilégio de poucos. Por isso o trabalho de Guilherme Dias é ainda mais fundamental. E, por isso mesmo, ele deve ser protegido e ressaltado, como uma resistência a esse crime tão brasileiro que, infelizmente, rima com turismo, mas não tem nada a ver com ele: o racismo.

Fonte: Folha de S.Paulo

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