Pousada em Petrópolis tem a cara da dona: sem regras nem modismos

Em Corrêas, localidade de Petrópolis, na Serra Fluminense, fica uma pousada com um encanto singular: sua dona. Laura Góes tem 88 anos e comanda a Alcobaça desde 1992, quando decidiu se mudar de São Paulo e de vida. “Eu era dona do colégio Gávea, que tive por dez anos. Antes disso tive o Palmares por cinco anos. Foram 15 anos como dona de colégio”, diz ela.

A casa onde instalou a pousada já era conhecida de dona Laura, pertencia à família de seu sogro. O avô dele, o imigrante português Manuel da Silva Monteiro, comprou a fazenda onde fica a Alcobaça em 1910, e a casa ficou pronta em 1914. Lóli, como é chamada por amigos e parentes, chegou a morar lá durante alguns anos, depois de casada, quando voltou de uma temporada nos Estados Unidos.

“Casei e me mudei para Houghton, uma cidade perdida no estado de Michigan, nos Estados Unidos, onde meu marido estudava”, conta.

​E lá, com uma cozinha só dela pela primeira vez, a culinária despertou seu interesse. “Era pequena, mas bem equipada, aí comecei a fazer umas coisas. Depois, quando os filhos ficaram adolescentes, traziam gente em casa e eu cozinhava para aquela turma imensa, foi ótimo.”

Hoje, a cozinha de Lóli é um dos pontos altos da pousada. “Gosto de fazer comida boa e gosto de ser livre para fazer o que eu quiser. Se tiver vontade de fazer comida japonesa não há nada que me proíba. Mas eu não quero fazer comida japonesa”, afirma. 

A culinária de dona Laura, de pratos simples feitos com sofisticação e ingredientes sempre frescos tem regras. “A minha religião proíbe margarina, proíbe adoçante. E cozinho mal para veganos.” 

Os modismos não fazem com que ela mude suas receitas. “Fico desconfiada porque as regras mudam muito. Banha de porco era terrível, agora é saudável. Hoje em dia é a farinha de trigo na berlinda, a gente não pode acreditar.”

As carnes de Lóli são servidas no ponto que ela considera ideal, mais para malpassadas, e ai de quem peça para cozinhar mais um pouco. Mas vale apostar no gosto dela, costuma ser uma boa surpresa. Sua feijoada com favas e linguiça deixou boas lembranças, é leve e super saborosa. 

As sobremesas valem um capítulo à parte, é quase obrigatório deixar um lugar para elas no fim das refeições. Uma é mais que especial, o custódio, um pudim de leite feito com pouco açúcar. Bolos são onipresentes, não tem um dia sem um novo. “Gosto de fazer sobremesas, faço muitas”, conta ela, que preparava um bolo de frutas quando conversou com a Folha.

O que mais surpreende na presença de Lóli são sua inteligência, sua generosidade e suas ideias sempre avançadas. Entre as coisas de que me lembro dela dizer durante um feriado na pousada, em novembro, estão as seguintes frases: “Gosto de tomar o que é gelado bem gelado e o que é quente muito quente. Talvez essa seja minha receita de vitalidade”.

E sobre a ideia de que os celulares vão fazer as nossas crianças lerem menos: “Já culparam o telefone, a TV, o videogame. Não é nada disso, é muito mais simples. Tem gente que gosta de ler, tem gente que não gosta. Vai ser sempre assim e não tem que ficar aborrecendo as crianças com isso”.

As criações e os casos de dona Laura já renderam um livro, “A Cozinha da Alcobaça: Receitas e Histórias”, lançado em 2009 pela editora Terceiro Nome. “De lá para cá já mudei muitas coisas, o livro ficou defasado. Quero fazer um novo, desta vez só com receitas, e botar apenas na internet”, conta.

Lóli teve seis filhos. Marta, a mais velha, nasceu nos Estados Unidos. Os outros cinco, meninos, nasceram aqui. Atualmente, o mais novo, Guilherme, que tem apelido de Guelé, mora com ela e a ajuda na administração da Alcobaça. “Hoje em dia não tenho mais rotina, não tenho horário e se quiser tirar um dia para não fazer nada eu tiro. Invento os cardápios, mas nunca faço um arroz. Isso quem faz são as meninas da cozinha.”

O jardim em volta da casa toma bastante o tempo de dona Laura e está sempre bem cuidado e muito florido. “Meu jardim é uma atração da pousada, tanto quanto a comida”, diz ela. “Outra coisa é a liberdade que os hóspedes têm de acordar a hora que quiserem, fazer o que quiserem. Aqui tem poucas regrinhas para obedecer, sabe? Detesto horários”, completa.

A casa com quartos amplos e confortáveis é recheada de livros. Há várias estantes, todas cheias, com obras antigas e recentes, clássicos e contemporâneos. Além de exemplares de seus parentes e conhecidos escritores. Lóli é mãe da escritora e roteirista Marta Góes, ex-sogra do escritor Mario Prata e avó do escritor e roteirista (e colunista da Folha) Antonio Prata.

Qualquer canto na Alcobaça convida a uma boa leitura, mas há um espaço reservado para isso. Uma saleta na frente dos quartos tem um sofá confortável e uma geladeirinha com águas e refrigerantes. O hóspede pega o que quiser e anota em um papel para pagar depois.

Do lado de fora, descendo uma escadona de pedras, ficam a piscina e a sauna. Ali, sentados em cadeiras reclináveis depois de um mergulho, fomos surpreendidos por um pote de coxinhas de asas de frango fritas e empanadas, crocantes e inesquecíveis. Ninguém estava nem com fome ainda, mas o petisco foi devorado. 

Do outro lado fica a grande horta da Alcobaça, de onde saem todas as verduras e alguns legumes servidos aos hóspedes. De lá dona Laura não cuida, fez uma parceria com moradores da cidade que dividem o resultado. “Mas eu compro as mudinhas às sextas-feiras, quando faço compras”, afirma.

Apesar de ter diminuído o ritmo de trabalho, é difícil ver Lóli parada na Alcobaça. Se não está numa mesa com os hóspedes mais íntimos ouvindo e contando histórias, ou tomando um gim-tônica depois de passar horas no jardim, acha um enfeite para trocar de lugar ou então tira da cozinha alguma coisa que começou a preparar momentos antes. Tudo na maior descontração.

“Acho ter pousada uma sopa perto de colégio. Eu trabalhava das sete da manhã às dez da noite em São Paulo. Aqui eu trabalho de vez em quando”, diz ela, trazendo uma torta de maçã recém-saída do forno e um pote de sorvete do freezer.

Alcobaça

rua Agostinho Goulão, 298, Petrópolis, RJ, tel. (24) 2221-1240. Diárias a partir de R$ 384 de segunda a sexta e R$ 480 aos finais de semana, com café da manhã. Preço para duas pessoas

 

Pacotes para Petrópolis

R$ 338 
2 noites, no Submarino Viagens (submarinoviagens.com.br) 
Em Petrópolis, sem regime de alimentação. Inclui passagem aérea a partir de São Paulo. Preço por pessoa

R$ 638
7 noites, na RCA (rcaturismo.com.br) 
Em Petrópolis, com café da manhã. Inclui seguro-viagem. Sem passagem aérea. Valor por pessoa 

R$ 774 
3 noites, na Litoral Verde (litoralverde.com.br)
Em Petrópolis, com café da manhã. Não inclui passagem aérea. Preço por pessoa

R$ 775 
2 noites, na CVC (cvc.com.br)  
No Rio de Janeiro, com uma visita a Petrópolis. Estadia em regime de meia-pensão. Inclui city tour nas duas cidades, transporte rodoviário entre São Paulo e Rio de Janeiro, guia e lanche. Preço por pessoa

R$ 820
4 noites, na Azul (azulviagens.com.br) 
Em Petrópolis, com café da manhã. Inclui passeio na cidade. Com passagem aérea a partir de Campinas. Preço por pessoa

R$ 1.865 
3 noites, na Expedia (expedia.com.br) 
Em Petrópolis, com café da manhã. Inclui passagens aéreas a partir de São Paulo. Valor para o casal

Fonte: Folha de S.Paulo

Comentários Facebook