O último bife em Montevidéu

Lembro-me como se fosse ontem, mas parece que faz um século. Objetivamente falando, foi há um ano cravado que embarquei para o Uruguai, na minha última viagem internacional.

Cheguei na madrugada de 5 de março de 2020 ao aeroporto de Guarulhos, quase vazio. Máscaras ainda eram escassas. Só cobriam um ou outro rosto de feições asiáticas.

O “novo” coronavírus já dominava o noticiário, mas os brasileiros esperávamos que a boa vontade divina nos poupasse dele. Quanto a mim, muita comida e muito vinho aguardavam em Punta del Este.

No hotel, o quarto dava vista oblíqua para o mar, que insistiu em permanecer marrom como as antigas enchentes da rua dos Lavapés.

Não. Baita indelicadeza com o amável povo uruguaio. Vou refrasear.

Em Punta, água pode ficar barrenta devido à proximidade do rio da Prata. O colossal estuário, que banha Buenos Aires e Montevidéu, despeja no Atlântico a lama das entranhas do continente. Naqueles dias luminosos, o reflexo solar sobre a água ocre mimetizava um oceano de dulce de leche lustroso.

Por falar nisso, no quarto do hotel me esperava uma bandeja com três mini-alfajores. Comi um e preservei os outros para o pós-esbórnia. Seria punk.

Fui mandado ao Uruguai pela editoria Turismo, para acompanhar a festa da colheita na mais premiada vinícola do país. Viagens assim são curtas e intensas, com os dias abarrotados de compromissos –dada a natureza da reportagem, igualmente abarrotado ficaria meu estômago.

Comi lula à doré à beira do mar de caramelo. Provei arroz de polvo e o peixe mais fresco em José Ignacio, a Trancoso regional. Devorei tacos e burritos com um bando de gringos num bar de cerveja artesanal.

Meus companheiros de viagem eram compradores de vinho norte-americanos. Foi com eles que voltei, numa van climatizada de janelas lacradas, da grande festa do vinho.

A celebração fechou a praça central de um vilarejo, com o chafariz repleto de gelo e garrafas de rosé. Brancos e tintos jorravam das mãos dos garçons nas mesas ao ar livre, além de empanadas, costela, cordeiro, mexilhões e peixe frito.

Abduzimos alguns rosados para o retorno ao hotel, coisa de uma hora no caminho de chão. Bebemos em copos plásticos enquanto cantávamos, aos berros, “Cecilia”, de Paul Simon –27ª colocada da parada “Billboard” na semana em que eu nasci.

No dia seguinte, ressaca e aeroporto em Montevidéu. Antes, uma escala na parrilla Garcia, churrasco de patrão no bairro Carrasco. O último ojo de bife antes de 2020 nos golpear abaixo da linha da cintura.

Guarulhos, domingo à noite: funcionários usavam máscara e um soturno aviso sobre a pandemia ressoava junto às esteiras de bagagem. A Itália já empilhava cadáveres. O texto ainda não saiu porque o Uruguai fechou as fronteiras.

Passei a semana seguinte sozinho em casa, com gripe e febre. Não sei se foi Covid. Não sei se foi o bonde do vinho rosé com os gringos.

Não sei se um dia vamos voltar a festejar daquele jeito.

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Fonte: Folha de S.Paulo

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