Na pandemia, faltam oportunidades para repousar as retinas ao longe

O que vemos no horizonte diante de nós, nesta situação inédita para nossa geração?Astrólogos da Virgínia ou déspotas de Brasília não devem ter muita coisa para enxergar, só alguns quilômetros de covas rasas das mortes estúpidas por eles fermentadas até chegar logo ali à borda da Terra plana. E acabou.

Tendo mais do que um par de neurônios, porém, nossa vista hoje tem muito a imaginar —sempre tem—, mas, encarcerados em quarentenas, nem tanto a enxergar.

No tempo das viagens, quando cruzávamos os céus, era possível vislumbrar horizontes de todo tipo, de montanhas, de casas e edifícios, de oceanos (sempre, quem diria, com uma curvatura subversiva capaz de ser tanto mais percebida quanto maior a altura).

Do pico do Aconcágua, que repentinamente se ergue do chão e fica dramaticamente próximo do avião, às rochas misturadas com floresta, mar e cidade na deslumbrante chegada ao Rio de Janeiro; das cores do Caribe que emanam do mar antes de se pousar na pequenina pista de St. Barth ao reflexo alvo e brilhante do manto formado pelas ondulações nevadas da cordilheira do Cáucaso.

De um balão, a vista em 360 graus poderia encher-se do verde vegetal dos vinhedos do vale do Napa, nos Estados Unidos, ou das pitorescas formações rochosas do Parque Nacional de Goreme, na Capadócia.Se a viagem fosse de trem, poderíamos ver as escarpas dos Andes a caminho de Cusco no Peru, o monte Fuji reluzindo suas neves ao longe das nossas janelas do trem-bala japonês, ou o colorido na natureza no trajeto florido pelas encostas que levam a Morretes, no Paraná.

Pelo mar, o horizonte pode parecer muitas vezes monótono, mas, mesmo quando é só água por todos os lados, o céu pode estar pincelado de nuvens, o mar pode estar manso ou encrespado e ganhar diferentes tonalidades. (Sou virgem de verdadeiras viagens de navio, a não ser um rápido percurso, e noturno, entre o Rio e Santos; desconfio que os viajantes, no percurso, olhem mais para dentro do que para fora, mas acredito que no meu caso deixaria as retinas descansarem um bom tempo mirando a lonjura por amuradas e escotilhas —a conferir algum dia.)

Fisicamente, o horizonte pode também brilhar nossas retinas a partir da mera janela do hotel. Do Hôtel de Paris, em Mônaco, se avista a perder de vista o Mediterrâneo, embora nossa atenção seja tentada a ficar mais perto, admirando a marina atulhada de embarcações de preços pornográficos.Do Le Meurice, na capital francesa, se descortina o jardim das Tulherias, com a torre Eiffel lá adiante (desde que, além de ter dinheiro para ficar nesses hotéis, ainda se possa desembolsar um punhado a mais por essas janelas privilegiadas).

No Casa de Uco, em Mendoza (Argentina), a vista passeia pelos vinhedos até chegar nos paredões da cordilheira dos Andes. Do hotel Fasano em Salvador é a Baía de Todos-os-Santos que se exibe, enquanto em Copacabana, a curva sensual daquele trecho do litoral pode ser vista do Copacabana Palace em direção ao Forte de Copacabana, ou no sentido inverso, partindo do Arpoador, como se descortina a partir das janelas do Emiliano ou do Fairmont.

Qualquer amante das viagens, depois de cem dias de recolhimento ainda sem data para encerrar, deve estar ansioso por ver, ou rever, esses horizontes e tantos outros mais. Há quem tenha a sorte de estar em casas mais amplas ou mais abertas para a natureza. Mas para milhões de pessoas a vista agora só alcança as paredes de casa, ou os prédios vizinhos, restando apenas algo como um horizonte zenital como opção para relaxar a musculatura ótica mirando estrelas.

E, ainda assim, não é a falta do horizonte físico, que já basta para trazer uma boa dose de angústia, o que mais nos enlouquece hoje. O mais terrível é o horizonte nebuloso que cerca nossas vidas de brasileiros, e que vai além da pandemia.

Com os direitos mais elementares ameaçados por um conluio entre neofascistas desumanos e milicianos cruéis, difícil saber o que virá pela frente para esta geração que em boa parte nasceu depois da ditadura militar, mas a alguma variante dela pode voltar.

Um horizonte nebuloso, onde a única certeza é que não acaba na quina dura de uma terra plana. Mas isso é muito pouco.

Fonte: Folha de S.Paulo

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