Influenciadores de gastronomia vivem num mundo sem pandemia e sem noção

Este é o décimo-sétimo ano consecutivo em que tentam emplacar o verão do vinho rosé. Os informativos das assessorias de imprensa oferecem as mesmas coisas de sempre:

  • Sobremesas geladas de baixa caloria;
  • Refeições light com salmão cru em alguma rede de fast food com inspiração remotamente havaiana;
  • Sanduíche de frango cremoso, festival da piscina de sopinha de cheddar cremoso, isso ou aquilo com requeijão cremoso. Parece que a epidemia é de cáries e fez o mundo perder os dentes;
  • Novos sabores de sorvete tipo gelato que buscam referência em alguma coisa que foi moda algum dia em algum lugar da Itália;
  • Drinques refrescantes para a estação feito pelo bartender João de Tal, do reality show XYZ, com o gim de R$ 350 feito sob medida para o público de paladar diferenciado;
  • Rede de restaurantes Grud’s, cuja proposta possui um conceito inovador na gastronomia, abre unidade flagship em Moema com cardápio sintonizado nas tendências que guiam o universo foodie.

Enquanto isso, os coleguinhas influenciadores de gastronomia seguem viajando a convite, comendo a convite, postando fotos de praias azuis e decks charmosos, ostentando camarões e lagostas e taças de moscow mule no Instagram, agradecendo por brindes fofos de marcas amigas, bebendo a cerveja sem álcool e a cerveja sem glúten sem dizer que foram pagos para isso, rindo como se o presente fosse uma festa e houvesse futuro promissor adiante.

Em que mundo essa gente vive? A coisa chegou a um ponto ridículo, surreal.

Entendo que é preciso sobreviver depois do colapso da imprensa, que tragou primeiro as editorias de futilidades –gastronomia, viagem e moda. Depois do colapso da economia. Depois do colapso da sociedade, que culminou com a pandemia da Covid-19.

Entendo que é preciso engolir em seco e aceitar trabalhos que não são exatamente ideais, pagos por quem pode pagar.

Mas eu não entendo o negacionismo da comunicação em gastronomia.

Empresas e seus contratados tentam nos vender um mundo que desmoronou faz tempo. Não dá mais para consumir como antes, com um sorriso idiota no rosto, porque tal vinho bombou em Saint-Tropez ou tal drinque virou hype nos Hamptons. Não dá mais para indicar uma opção de alimentação saudável e prática, mas que preserva todo o sabor, para manter o corpo em forma e se exibir na praia. Não faz sentido que pessoas com boletos vencidos compartilhem glamour como se pudessem pagar por ele.

Jornalistas e assemelhados são intrusos, sempre foram. Uma das graças do ofício é se imiscuir com os políticos, com os ricos, com os artistas, viver um pouco da vida dessas pessoas peculiares sem se tornar uma delas. Mas também é inerente à profissão o crivo crítico, o filtro de sensatez para se identificar com a sociedade em geral e reportar sem deslumbre o universo dos poderosos.

O deslumbramento acrítico sempre foi tolerado na imprensa de lifestyle –e, mais tarde, nas mídias sociais– porque refletia, de certa forma, certas aspirações de certa parcela do público. Não tem mais aspiração. Tem a bajulação dirigida a quem já está no topo da pilha de carne-seca, em troca de uns retalhos de charque. Ou o certo seria dizer jabá?

É urgente que restaurantes, hotéis, marcas de bebidas e de comida, companhias aéreas e todo o setor de entretenimento encontrem um jeito novo de se dirigir ao consumidor potencial.

Em 2021, repetir a fórmula que vicejou na década passada se tornou ofensivo.

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Fonte: Folha de S.Paulo

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