Entre os palpites e a crítica

Enquanto nossa imagem internacional de país do genocídio promete nos manter mais algum tempo barrados no baile do turismo pelos países mais responsáveis, resta-nos sonhar. Entre as modalidades escapistas que tenho encontrado está a de acompanhar publicações de rankings de melhores cidades para visitar.

Depois de um período relativamente homogêneo da tragédia pandêmica, com todo o mundo de fronteiras fechadas, agora várias regiões do planeta relaxam as restrições, estimulando as pessoas a sonhar com as próximas viagens.

Listas e rankings ajudam a dar inspiração. A maioria delas é baseada nas atrações e facilidades turísticas; outras trazem recortes mais específicos —como locais com as melhores praias, ou estações de esqui, ou atrações culturais.

A mais recente a me cair nas mãos tenta ser mais ampla. Preparada pela consultoria internacional Resonance, o ranking de 2021 quer, como em suas versões anteriores, ser o mais abrangente possível, levando em conta vários fatores: além das atrações turísticas, também fatores como qualidade de vida local, espírito inovador, facilidade de fazer negócios, nível de poluição atmosférica —e como a cidade tem respondido à pandemia.

Já tinha comentado aqui a lista de 2020, agora atualizada especialmente quanto às condições das cidades diante da Covid-19. Não traz muitas surpresas, mas parece baseada em dados bastante sólidos. Apenas um dos parâmetros considerados me parece um tanto frágil: a importância dada aos sites turísticos “colaborativos”.

Sim, um dos índices levados em consideração são as reações dos viajantes registradas em sites como Trip Advisor (onde os turistas dão notas para os locais visitados —de museus a bares, de praias a hotéis) e Yelp (que faz ranking de restaurantes, sempre baseado em notas e comentários de internautas).

Da última vez em que mencionei esta pesquisa, não contei que ela se baseia em seis parâmetros: Lugar (que inclui itens como clima e segurança), Gente (inclui diversidade e grau de educação), Programas (entretenimento, vida noturna, restaurantes), Produto (infraestrutura, museus, aeroportos, centros de convenção), Prosperidade (índices de qualidade de vida, PIB per capita) e também o que eles chamam de Promoção, o que acho mais complicado (a presença online da cidade, baseada nas menções em espaços como Facebook, Google, Instagram e avaliações “colaborativas” do TripAdvisor e semelhantes).

É o pilar da pesquisa que sempre me deixa com um pé atrás. Explico: é claro que não se deve ignorar redes sociais e correlatos como termômetro do comportamento. Mas, ao mesmo tempo, não é possível tomar como critério de qualidade os sites que classificam qualquer coisa —de filmes a hotéis— com base na votação anárquica de um público aleatório.

Tendo a conferir maior seriedade a fontes que se baseiam em estudos e especialistas (como críticos especializados ou fontes acadêmicas); ou em pesquisas de opinião de institutos sérios (que são organizadas com bases científicas).

Já os sites “colaborativos” me parecem o reino do amadorismo e da improvisação. Alguma informação de lá se tira: por exemplo, que, naquele universo de frequentadores (que não sabemos exatamente qual é), vai mais gente para um país do que a outro, mais gente gostou de um filme do que outro, mais gente prefere pizza que feijoada.

Mas um filme (ou hotel ou restaurante) fazer sucesso entre aqueles votantes não quer dizer em absoluto que sejam o melhor filme (ou hotel ou restaurante).

Na aurora da internet e desses tipos de sites, chegou-se a se prenunciar a morte da crítica séria e abalizada, substituída pela “democracia” da opinião coletiva. Uma visão tacanha —que privilegia o pensamento de manada e tem ódio da inteligência, da informação, dos especialistas, mas que agora, mesmo na internet, é colocada em cheque: a imprensa especializada não morreu e, pelo contrário, vem sendo prestigiada por milhões de assinantes online cansados da infinita anarquia de palpites.

E antes que me esqueça: na versão atualizada da pesquisa mencionada (chamada World’s Best Cities), as dez primeiras colocadas são, por ordem de importância: Londres, Nova York, Paris, Moscou, Tóquio, Dubai, Cingapura, Barcelona, Los Angeles e Madri.

Fonte: Folha de S.Paulo

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