Enigmas no ar

Ainda fugindo do vício das maratonas de séries de TV, tão comum na pandemia, venho tentando me ater a longa-metragens, documentários e filmes clássicos. Agora topei com uma comédia de Frank Capra de 1934, “Aconteceu Naquela Noite” (no YouTube, pago, ou gratuito, com anúncios, na NetMovies).

Um dos motivos que me levaram ao filme foi o papel de Clark Gable, um jornalista em dificuldades (e qual não está?). Mas o que me leva a mencioná-lo aqui é a cena de um playboy chegando à festa de seu casamento pilotando triunfalmente um helicóptero.

A aeronave —estávamos nos anos 1930— me surpreendeu: parecia um teco-teco, com asas e uma hélice no bico, mas também o rotor de pás giratórias em cima que permitiu ao aparelho deslizar mansamente poucos metros no jardim da mansão, sem pista de pouso.

Comecei um devaneio no qual parecia que as últimas longas viagens de avião tinham ficado tão para trás quanto o cenário daquele filme feito há quase 90 anos. E deu saudade até mesmo dos filmes vistos no ar —entre os quais, por exemplo, poderíamos agora ter concorrentes ao Oscar ainda não disponíveis no Brasil.

Mas nestes tempos amargos, até devaneios inocentes são logo atropelados pelas mazelas da realidade. Como o fato de que, em meio a atrações de qualidade (filmes, documentários, música), tudo o que vemos a bordo passa por um crivo —às vezes bem bizarro— que pode não apenas alterar o formato da obra, como também censurar seu conteúdo.

Lembrei de uma reportagem do Washington Post de pouco mais de um ano atrás relatando que dois filmes exibidos a bordo pela americana Delta Airlines haviam sofrido censura homofóbica. Um deles foi “Fora de Série”, dirigido por Olivia Wilde, no qual a cândida cena de amor entre duas adolescentes (apenas beijos, sem nudez) foi eliminada. Outro foi “Rocketman”, a biografia de Elton John dirigida por Dexter Fletcher, com cenas de sexo homossexual (até mesmo um simples beijo entre homens) cortadas.

A Delta declarou ao jornal que não tem nenhuma orientação que exclua homossexualidade nos filmes. O que nos leva a investigar como então a coisa funciona. Na verdade existem empresas contratadas pelas companhias aéreas para selecionar e editar (por exemplo mudar o formato, legendar, dublar) o material de entretenimento a bordo.

Esta seleção (depois aprovada pela contratante) segue uma série de diretrizes que as empresas aéreas julgam adequadas para seu público. E é aí que começa um enigmático e cinzento território.

Algumas coisas são óbvias. É até compreensível que, em respeito a possíveis passageiros com pânico de voar, não sejam exibidos a bordo filmes de desastres aéreos (tipo “O Voo”, de Robert Zemeckis, ou “Voo United 93”, de Paul Greengrass) e semelhantes (que tal “Serpentes a Bordo”, de David Ellis?). É compreensível, mas não evidente: mesmo nestes casos, poderiam haver avisos sobre o conteúdo dos filmes, e cada um decidir o que quer ou não ver.

O problema maior é quando se entra em julgamentos morais, políticos, geodemográficos em um nível que pode sim configurar manipulação ou censura. Para explicar como isso funciona, o representante de uma dessas empresas, Encore Inflight (de Hong Kong), disse ao site The Point Guy que eles devem seguir as diretrizes com restrições de cada companhia aérea.

Estas podem ser tão amplas quanto eliminar —além de acidentes de avião— cenas com nudez, sexo (mesmo que implícitas), representações religiosas, logotipos de companhias aéreas concorrentes, palavrões, imagens ou menção a porcos ou carne de porco (para companhias de países muçulmanos)…

E aí chega-se a situações em que, como relatado por um leitor do mesmo site que viajava pela companhia Oman Air, num episódio da série “Will & Grace” a palavra “judeu” foi silenciada no áudio. Enquanto nos indicativos de rotas mostrados nas telas da libanesa Middle East Airlines, Israel literalmente sumiu do mapa.

​Ainda assim, diante do que me espera no final, não vejo a hora de voltar a voar aquelas longas horas. Mas sempre é bom ficar esperto com o que nos mostram lá em cima.

Fonte: Folha de S.Paulo

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