Comunidade dá o peixe e ensina visitante a pescar em praia de Ilhabela

​Não é fácil chegar a Castelhanos. Para pôr os pés na porção leste de Ilhabela, escancarada para o Atlântico, é preciso atravessar o Parque Estadual de Ilhabela por uma estrada estreita, íngreme e barrenta, que só pode ser vencida por veículos 4×4. 

Quem encara a aventura de pouco mais de uma hora aos solavancos, é brindado com uma praia de areia branquíssima, cercada por mata atlântica e quiosques que vendem cerveja e iscas de peixe.

Pena que a maioria dos visitantes se dá por satisfeita ali mesmo. A poucos metros, caminhando para a ponta direita da praia, está o maior tesouro de Castelhanos, uma autêntica comunidade caiçara que vive da pesca artesanal.

Por ali, quase todo mundo é da família Lucio. Eles somam em torno de 40 núcleos. “Somos todos aparentados. O primo de cá se casou com a prima de lá…”, diz Laurinda Lucio, 58. 

Ela é uma liderança na comunidade. Nasceu e cresceu naquela ponta de praia e, embora não costume ir para o mar, sabe tudo de pesca. 

“Peixe-espada e olho-de-cão é o que mais dá por aqui. A gente vende filés para os quiosques, mas o pessoal da cidade prefere peixes inteiros. A quantidade é um bilhete de loteria, a gente só pede para Deus mandar”, afirma.

Enquanto Laurinda conversa, o marido dela, Lauro Lucio, 57, se mantém concentrado na função de esculpir barquinhos de madeira. 

Sentado no chão de terra batida, vai lascando tocos de caixeta sem levantar os olhos. Em minutos, sai de suas mãos um barquinho para ser vendido na loja de artesanato, que funciona na varanda de casa.

Faz pouco tempo que Laurinda e Lauro souberam que essa rotina deles pode interessar aos turistas. 
Desde março de 2018, o projeto Turismo de Base Comunitária em Castelhanos tenta mostrar aos visitantes um vilarejo caiçara como ele é. 

Além de convencer a comunidade de seu potencial turístico, idealizadores do projeto, como a consultora da Maembipe Ecoturismo, Daniella Marcondes, e o guia do Pouso Sambaquis Ilhabela, Alex Damico, cuidaram da capacitação dos moradores. 

Laurinda tem a lição na ponta da língua. “Antes, o turista vinha e deixava o dinheiro para quem explora os quiosques, gente de fora da comunidade. Não tem graça, quiosque é igual em qualquer praia. Melhor é conhecer quem vive aqui, ver o que a gente come e o que faz. O turismo comunitário mudou isso, quem ganha é a gente”.

Os caiçaras têm muito o que exibir, a começar pela pesca do cerco, técnica sustentável que os brasileiros aprenderam com imigrantes japoneses.

De barco a motor, João de Souza Lucio, cunhado da Laurinda, leva os turistas até uma das redes, montada de forma permanente no mar.

A rede forma um labirinto, onde os peixes entram por conta própria e não conseguem sair. Por dia, os pescadores vão de três a cinco vezes aos cercos, buscar os que caem nas armadilhas e são transferidos para o barco ainda vivos. Se vem junto um peixe-voador ou uma tartaruga, eles devolvem para a água. 

Depois da pescaria, é possível dar uma esticada até praias vizinhas e espiar casas só acessíveis pelo mar. Na volta, é hora da participar da oficina de confecção de rede de pesca.

Irineu Lucio, 48, aprendeu o ofício com o pai e o tio, ainda garoto. Enquanto conversa com os turistas, maneja a agulha com rapidez.

Chega a hora do almoço. De touca nos cabelos, cuidado que aprendeu durante o treinamento para o projeto, Laurinda põe na mesa as travessas de peixe ensopado, arroz, feijão, farofa e salada. 

As folhas são de taioba, que cresce no quintal —a verdura gigante, refogada em tirinhas, lembra a couve-manteiga. 

O banquete custa R$ 45 por pessoa. “Basta me avisar com uma hora de antecedência que dá tempo de preparar”, diz.

Não espere encontrar badejo ou linguado. Em Castelhanos, o que se come é sororoca, xerelete, pescada-cambucu, espada ou o que mais o mar trouxer. Dependendo da época, aparece camarão ou lula.

A cultura de apreciar o peixe do dia é um valor caro para os caiçaras. Os preparos são simples e não vão muito além do ensopado e da fritura. Nem precisa, o frescor dos ingredientes dá conta do recado. 

Se tem banana verde no pé, o visitante pode provar o azul-marinho, ensopado típico do litoral paulista que recebe esse nome porque o tanino da casca da banana, em contato com a panela de ferro, provoca uma reação química que deixa o caldo cinza azulado.

A conversa vai longe quando alguém pergunta sobre a origem da comunidade. Todo mundo ali tem uma história —dizem que piratas europeus se refugiavam na ilha, onde não faltam esconderijos naturais.
A visita a Castelhanos tem hora para começar e terminar. A administração do parque determina que o trajeto até lá seja feito das 8h às 14h, e a volta, das 15h às 18h. 

Quem perder a hora pode bater na porta de Vivian Souza, 41, dona da Petiscaria Castelhanos, que fica a poucos passos da casa da Laurinda. Ela tem sete quartos para alugar, que acomodam até 26 pessoas —a diária com café da manhã sai R$ 200 por casal. 

Outras opções são os campings do Formiga e do Luz, a poucos passos do mar —R$ 35 por pessoa pelo pernoite. 

As tarifas e a programação completa de experiências estão na página castelhanos.org

Não se esqueça de levar bastante repelente. Os borrachudos, afirmam os moradores, já não atormentam como antes, mas ainda são presença constante na região.  

E não se prenda aos horários. Na hora, a programação pode mudar. “Muita gente daqui sabe cozinhar, fazer rede e pescar. Se um marca e não pode no dia, o outro assume”, diz Laurinda.

A repórter viajou a convite da Associação Comercial e Empresarial de Ilhabela

Fonte: Folha de S.Paulo

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