Aonde a música me levar

O nome do festival: “The Little Gig One”, no original. Que deveria ser em alemão, para honrar a língua do curioso território onde acontecia. Era o final dos anos 90 e eu estava lá, em Liechtenstein, para conferir então esse “pequeno grande” festival de jazz.

Como em todo evento musical que leva essas quatro letras tão poderosas, eu estava lá para conferir não exatamente uma banda de jazz, mas de reggae, brasileira. Meu plano era, depois dos shows, explorar mais este que é um dos menores países —ops, principados!— do mundo. Mas, tive que sair de lá prematuramente, para cobrir um terremoto na Turquia.

Porém, tendo dormido duas noites por lá, segundo critérios que eu mesmo inventei eu já podia colocar Liechtenstein na minha lista de lugares visitados. Lembrei isso esses dias quando fui perguntado (novamente) quantos países conhecia.

São 114, incluindo Liechtenstein. Mas essa lembrança foi o gatilho para eu olhar para as minhas viagens de uma maneira diferente: e se a minha bússola para explorar nosso planeta fosse musical?

Já há 18 meses sem sair do Brasil, depois de tantas imagens revisitadas, abri um canal diferente da minha memória e comecei a rever as conexões que a música tinha com as escolhas dos meus destinos. E eram tantas…

Sim, já fui a Paris para ver apenas uma ópera, a estupenda montagem de “Il Primo Omicidio”, de Scarlatti, dirigida por Romeo Castellucci, no Palais Garnier, em 2019. Também peguei um avião até Buenos Aires, em 2016, para celebrar um aniversário de namoro ouvindo Rufus Wainwright, no venerado Teatro Colón.

Profissionalmente, fui pela primeira vez a Tóquio graças a John Lydon, do Sex Pistols, que, de lá, me concedeu uma entrevista antes de vir tocar no Brasil. Björk me levou à mesma cidade pela segunda vez, também para uma entrevista antes de ela aterrissar por aqui.

Mas, quando foi que um som passou a ser parte da experiência de conhecer um lugar? A ligação musical mais estranha que vivi talvez tenha sido em Tuvalu. Originalmente fui lá para uma reportagem sobre o perigo de o país desaparecer com o nível dos oceanos subindo.

Mas, quando ouvi os músicos em Funafuti, a capital, com suas pequenas canções cujo tempo acelerava a cada estrofe, numa estrutura que eu nunca tinha ouvido na vida, eu realmente enlouqueci.

Passei a colecionar sons inusitados. Podia ser uma cantoria feminina, num pequeno altar hindu caseiro, que me atraiu de tal maneira a ponto de desviar meu caminho em Rishkesh, na Índia. Ou a percussão hipnótica de uma dança do fogo numa tribo no meio do nada em Papua-Nova Guiné.

Me lembro de música clássica otomana acompanhando dervishes na Cisterna de Istambul; de uma harpa paraguaia em Foz do Iguaçu; de um fado cantado de olhos fechados num pequeno bar no Porto; de violeiros no interior do Sergipe; de uma noite de semba (não, não é samba) em Luanda.

Quando retornei a Bali, quase 20 anos depois da primeira visita, percebi que a saudade maior que eu sentia era dos metais dos gamelões. E que delírio foi ouvir as cordas de um sanchin na própria ilha em que foi inventado: Okinawa!

Os sinos de San Giminiano, Itália. Os concertos contemporâneos da Harpa, Reykjavyk. As índias cantando no Xingu. Uma banda tuaregue em Timbuctu. O Chemichal Brothers pulsando na madrugada de Londres.

Sons demais que, agora, mais que registros, serão inspirações. Se logo podemos sonhar em traçar novos roteiros, que eu me permita então, como dizia o hit da era “disco”, ir por onde a música me levar. É meu destino, certo, Tina Charles?

Fonte: Folha de S.Paulo

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