Números recordes de brasileiros foram presos na fronteira sul dos Estados Unidos este ano, como parte de uma crise imigratória dos EUA. A polícia acredita que uma disputa sobre a guarda de uma criança a levou a um dos contrabandistas que transportam os imigrantes para o norte.

No início de junho, a Polícia Federal brasileira prendeu Chelbe Moraes, um empresário que teria fugido com sua filha de 3 anos ao perder a custódia para sua ex-companheira. Depois de grampear os telefones de pessoas próximas a Moraes, os policiais começaram a suspeitar que ele era um contrabandista veterano, ou “coiote”.

A polícia o acusa de cobrar de brasileiros sem vistos válidos dos EUA cerca de 20.000 dólares cada para entrar nos Estados Unidos via México. Para conseguir isso, Moraes construiu uma rede internacional que inclui autoridades e policiais corruptos, além de membros da família nos EUA, segundo o processo judicial. A Reuters conversou com mais de 20 pessoas com conhecimento do caso, incluindo policiais, autoridades da imigração, associados de Moraes e três pessoas que alegaram ser clientes dele. Essas entrevistas pintam o quadro de um contrabandista experiente cujo negócio prosperou em meio à turbulência política e econômica no Brasil.

Moraes, que declarou inocência à polícia, disse à Reuters que dirige uma consultoria legítima aconselhando pessoas sobre pedidos de asilo nos EUA em seu Estado natal, Minas Gerais. Ele afirma que atendeu até 200 clientes ao longo de uma carreira de 20 anos, cobrando dos clientes que preenchem os critérios dos EUA até 100.000 reais para ajudá-los a migrar.

“A assessoria que eu cobro é cara pra caramba, porque eu conheço a legislação americana”, disse ele. Duas pessoas familiarizadas com sua suposta armação, um ex-cliente e um ex-sócio, disseram à Reuters que Moraes ensina seus clientes a se passarem por turistas ao chegarem ao México, às vezes conseguindo a entrada com a ajuda de funcionários da imigração mexicana subornados.

Moraes então leva os brasileiros para o norte, onde eles passam a fronteira com a ajuda de coiotes mexicanos contratados ou buscam asilo nos EUA usando documentos falsos e histórias elaboradas que Moraes criou para eles, disseram as fontes.

O Instituto Nacional de Imigração do México, a agência federal de imigração do país, não respondeu a um pedido de comentário. Moraes disse que aqueles que afirmam que ele comandava uma operação de contrabando foram “induzidos” a fazê-lo pela polícia ou tinham inveja de seu sucesso. Mas ele reconheceu estar se beneficiando dos problemas do Brasil. “Quanto piora o governo aqui, para mim é melhor.”

Os brasileiros não precisam de visto para entrar no México, o que torna mais fácil para os contrabandistas levar os imigrantes para lá e transportá-los para o norte. O governo Biden quer que o México imponha exigências de visto aos brasileiros para complicar esse caminho, disseram à Reuters duas fontes familiarizadas com a situação.

As negociações começaram em julho, mas o México tem resistido, citando o lucrativo turismo brasileiro e a possível ação recíproca de Bolsonaro, disse uma das pessoas. O Departamento de Estado dos EUA se recusou a comentar sobre as “discussões diplomáticas em andamento”. As chancelarias do México e do Brasil não responderam aos pedidos de comentários.

Fonte: Brazilian Press